Açorianos no RS

Dando sequência à série de matérias sobre as culturas formadoras do RS, aqui está a primeira parte sobre a história açoriana no estado, que começou como um projeto da Coroa Portuguesa para ocupar o Rio Grande do Sul.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

A Região Autônoma dos Açores é um arquipélago colonizado por Portugal e de lá veio grande parte dos portugueses que povoaram o Rio Grande do Sul em seus primeiros tempos. “Para entender por que os açorianos vieram para cá, a gente tem que recordar um pouco da história do Rio Grande do Sul”, destaca Véra Lucia Maciel Barroso, profª drª em História pela PUCRS e uma das idealizadoras do Centro Histórico Cultural Santa Casa.

Véra organizou o livro “Presença açoriana em Santo Antônio da Patrulha e no Rio Grande do Sul” (EST, 1993), entre outras pesquisas na área, e começa relembrando o Tratado de Tordesilhas (1494), que dividia a América do Sul entre Portugal e Espanha e deixava todo o RS do lado espanhol. Logo os portugueses perceberam que o Rio da Prata era uma área estratégica no Cone Sul: “Portugal sempre teve o olhar sobre essa região, mesmo não sendo dela, a ponto de fundar a Colônia do Sacramento, em 22 de janeiro de 1680, com Manuel Lobo. E ali começaram as lutas entre Portugal e Espanha.”

Primeiro, os tropeiros

Nos anos 1700, começou o ciclo do ouro em MG e as mulas se mostraram o transporte mais eficaz da mineração. Portugal, então, passou a fomentar o comércio dessas mulas no Brasil Colônia, fazendo surgir os tropeiros, que transportavam mulas de um criatório ao norte da Argentina e percorriam uma trilha em U, que passava pelo RS para chegar a Sorocaba/SP, ponto de comércio dos mineradores.

Este trajeto, nada ocasional, levou muitos tropeiros de diversas capitanias a se fixarem no território do RS. Foram os primeiros povoadores, alguns deles portugueses, a se estabelecerem aqui, que logo passaram a pedir que a Coroa Portuguesa legitimasse as suas terras, com a concessão de sesmarias.

Monumento aos Açorianos em Porto Alegre/RS. Foto: Letícia Garcia

“A primeira legalização de terras no Rio Grande do Sul como posse portuguesa foi na Paragem das Conchas, que seria hoje Tramandaí, uma sesmaria concedida ao português Manuel Gonçalves Ribeiro. Então tu começas a ter uma ousadia portuguesa num território espanhol, concedendo uma terra e oficializando a propriedade portuguesa aqui. Foi uma estratégia de ocupação”, destaca Véra.

Neste meio tempo, surgiu a figura do gaúcho, caçador de gado selvagem da região do pampa entre o RS, o Uruguai e a Argentina. Portugueses e espanhóis esparsos se fixaram no Rio Grande do Sul, ao lado dos indígenas — os açorianos chegaram em um ambiente em que a miscigenação cultural já estava presente.

Açorianos, enfim

Este avanço português, claro, levou a desavenças colonialistas com a Espanha, que tinha o título de dona do território. O Tratado de Madri (1750) procurou dar fim aos problemas, passando a Colônia do Sacramento (no Uruguai) para a Espanha e o território dos Sete Povos das Missões (no RS) para Portugal, que deveria ser esvaziado da sua população de índios e jesuítas.

Para dar início ao povoamento das Missões, Portugal fez um chamamento nas ilhas dos Açores, que são vulcânicas e sísmicas e sempre estiveram à mercê de desastres naturais — população propícia a aceitar o convite.

“Açorianos já vinham sendo trazidos para a área litorânea de Santa Catarina desde a década de 1740. Portugal estendeu este processo migratório para o Rio Grande do Sul”, explica Véra. “Eles vêm numa lógica estratégica militar para ocupar e garantir este território e, por consequência, praticar agricultura, que era a cultura que tinham lá no Portugal insular, ilhéu, dos Açores.”

A ideia era estabelecer povoados não só nas Missões, mas em outros locais, incluindo 60 casais em Porto Alegre. A sua chegada, no entanto, foi em meio a um cenário de conflitos. Você confere a sequência desta história na próxima edição.

 

De 15 a 17 de junho, o CHC Santa Casa irá receber o Encontro Internacional de História e Genealogia Açoriana, como parte da 3ª Semana Nacional dos Arquivos. Saiba mais em centrohistoricosantacasa.com.br

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