Acampamento farroupilha

Foto: David Alves/Palácio Piratini

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Há 35 anos, gaúchos e gaúchas reúnem-se no Parque da Harmonia no mês de setembro para celebrar as tradições campeiras e comemorar – “lembrar em conjunto” – a Revolução Farroupilha. Um pedaço de campo é trazido para o meio da cidade para relembrar os tempos históricos do povo rio-grandense, numa das maiores celebrações folclóricas do país. Para saber mais deste grande encontro, conversei com Nairioli Antunes Callegaro, atual presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), entidade que organiza o acampamento ao lado da Fundação Cultural Gaúcha e da Prefeitura de Porto Alegre.

Hoje espaço central para os festejos farroupilhas, o acampamento nasceu de um encontro não planejado de pessoas que vieram a Porto Alegre para o desfile de 20 de setembro – a “data magna” dos gaúchos, que marca o início da Guerra dos Farrapos (1835-1845). Em 1981, os 65 hectares do recém fundado Parque da Harmonia atraíram espontaneamente alguns cavalarianos, que usaram o espaço como ponto de concentração. Isso seguiu acontecendo anualmente até 1987, quando o parque ganhou o nome de Maurício Sirotsky Sobrinho e recebeu a primeira edição oficial do acampamento farroupilha, reunindo CTGs e outras entidades ligadas ao tradicionalismo. “Eles começaram a acampar e iam se mapeando – quem chegasse primeiro ia se estabelecendo ali. Então surgiu a necessidade de um apoio da Prefeitura para questões estruturais, como rede elétrica e água”, conta Callegaro. Em 1990, a 1ª Região Tradicionalista, que abrange também Porto Alegre, passou a ser encarregada da coordenação e instituiu que seriam erguidos galpões no lugar de armações em lona. Sete anos depois, o MTG assumiu este papel, que ocupa até hoje ao lado da Fundação Cultural Gaúcha e da Prefeitura. O objetivo do fundador do Parque da Harmonia, Curt Zimmermann, era criar um espaço para abrigar atividades ligadas à tradição gaúcha – mas ele não previa tamanho encontro.

 

EDIÇÃO 2016

O tema dos festejos farroupilhas este ano é “República das carretas” e comemora os 180 anos da proclamação a República Rio-Grandense (11 de setembro de 1836). Baseado no romance histórico de mesmo nome escrito por Barbosa Lessa, o tema trata da administração da república pelas estradas do estado. “A capital farroupilha começou em Piratini, depois foi para Caçapava e depois para Alegrete. A documentação e a administração viajavam de carreta – e eles iam administrando essa província em cima das próprias carretas”, conta Callegaro. A partir deste fato histórico ligado à guerra, buscou-se falar da história através da literatura. No acampamento deste ano, o número de piquetes se mantém em 365, a grande maioria de Porto Alegre e região. Desde 2005, todos os inscritos precisam apresentar um projeto cultural, e 40 deles participam do Turismo de Galpão, que oferece 158 oficinas, atividades e caminhadas guiadas pelos piquetes para retratar histórias e costumes adotados pelos gaúchos. Churrasco e bom chimarrão não faltam, além de uma programação com apresentações de dança, tertúlias, exposições e bailes com ícones da música regional, como Dante Ramon Ledesma e Luiz Marenco. O acampamento também recebe o 4º Festival de Música Nativista, o Festival de Trova, o Festival de Chula e o 1º Festival Comida de Galpão. Além disso, atividades ligadas ao campo: rodeios, tiro de laço, rédeas e gineteadas são realizados na Fazendinha, onde ficam os cavalos e demais animais.

 

PESQUISA E SEGURANÇA

A recepção de escolas está prevista entre as atividades, para levar às novas gerações o gosto pelas coisas do sul. “Este ano nós temos uma atividade muito interessante: a Escola Estadual Prof. Aggêo Pereira do Amaral, de Sorocaba/SP, escolheu visitar o acampamento farroupilha para fazer pesquisas. Eles já têm feito este trabalho em outras regiões do Brasil”, informa Callegaro. “Acredito que o interesse tenha sido despertado, principalmente, depois da edição especial na Copa do Mundo, quando o acampamento ficou conhecido por turistas. Esta construção faz parte de um histórico de qualificação do acampamento: melhoria em termos de segurança, estrutura e recepção aos turistas.” Quanto à segurança, o presidente ressalta: “Nós temos uma delegacia de polícia que trabalha ali até o dia 20, um posto da Brigada Militar que fica efetiva durante este período. Também vamos ter agora o Juizado Especial dos Grandes Eventos, que estará instalado este ano, ou seja, nós temos toda uma preparação e uma preocupação com a segurança.” Os visitantes e acampados também contam com espaço para alimentação, sinal wireless gratuito, posto de saúde, terminais bancários e estacionamento.

 

O CAMPO NA CIDADE

“O acampamento farroupilha é uma consequência de todo o processo de tradicionalismo organizado que começou na década de 1940 aqui no Rio Grande do Sul, que é a valorização do sentimento de pertencimento, da nossa cultura, tradição, origens, dança, culinária, trova, música, declamação, a identificação cultural com nossa terra, nosso estado, nossa formação social, econômica, política, enfim: é uma retomada desta autoestima de nossos gaúchos e de toda a nossa cultura”, define Callegaro. O espaço no Parque da Harmonia serve de ponto de encontro para vivenciar a vida campeira e valorizar o passado histórico. As atividades do acampamento começaram dia 3 e vão até dia 20 de setembro, culminando no desfile tradicional. A abertura oficial, dia 7, foi marcada pela chegada da chama crioula – união da chama da pira da pátria, seguindo o ritual de 1947, e da itinerante, gerada em Triunfo. A patrona deste ano é Neuza Secchi, historiadora especializada em folclore. “É uma opção social, contribuir para que este movimento cresça, se estabeleça e mostre para a sociedade a valorização da cultura gaúcha, da nossa tradição, como um mecanismo para formar cidadãos de bem”, finaliza Callegaro.

 

banca-43

COMENTÁRIOS