Academia Literária Feminina do RS: Um teto todo delas

O sobrado na Rua Sarmento Leite, 933, apertado entre dois prédios, quase passa despercebido. Ele reúne entre as suas paredes uma história de 75 anos na busca pela valorização da escrita feminina no estado. A Academia Literária Feminina é Patrimônio Histórico e Cultural do Rio Grande do Sul (Lei nº 12.772/2007) e foi reconhecida como Utilidade Pública de Porto Alegre (Lei nº 1.040/1953). Mesmo assim, são poucos os que conhecem seu contínuo trabalho.

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

A maior parte das mulheres da ALF não faz parte de um círculo conhecido da história da literatura — e são diversas escritoras, muitas com amplas produções. Valorizar esse trabalho é o principal objetivo da Academia, que nunca interrompeu as suas atividades ao longo desses 75 anos. Foi Lydia Moschetti quem acendeu a centelha, uma literata e empreendedora social. “Ela primeiro pensou em entrar para a Academia Rio-Grandense de Letras, mas os homens vetavam a entrada de mulheres na época”, conta Teniza Spinelli, atual 2ª vice-presidenta da ALF. “Ela imaginou: se nós não somos bem-vindas na Academia, vamos ter que criar uma para nós, para que possamos, então, atuar.”

 

COMEÇA A ACADEMIA

Lydia reuniu Alzira Freitas Tacques, Aracy Fróes, Aura Pereira Lemos, Aurora Nunes Wagner, Beatriz Regina e Stella Brum para fundarem a ALF em 12 de abril de 1943. O trabalho de empoderar os escritos femininos começou a ser feito — numa época em que essa palavra não era nem conhecida. As fundadoras escolheram como patronas mulheres representativas de todo o país e de diferentes épocas, como Cecília Meireles e Luciana de Abreu, que passaram a ser estudadas pelas acadêmicas.

Segundo resgate histórico de Teniza, a Academia Rio-Grandense de Letras se recusou a participar do evento de fundação; uma carta do então secretário da entidade, Ary Martins, sugeria: “Cuidem elas de costuras e culinária; quando muito, fundem um grêmio de letras, nunca, porém, uma Academia, atributo exclusivo dos homens”. Meses depois, um jantar de confraternização marcou a paz entre as entidades. O grupo de escritoras, bem posicionadas na sociedade porto-alegrense, numa época em que a mulher começava a alcançar os estudos, logo repercutiu na vida intelectual da cidade.

 

A SEDE NO SOBRADO

A ALF foi a primeira academia do tipo registrada no Brasil, apesar de haver outras iniciativas informais, como a Liga Feminina Cearense (1904). Segue o modelo francês, com 40 cadeiras, cada uma com a sua patrona e uma integrante titular e vitalícia, além de algumas sócias, também ligadas à literatura. Os primeiros encontros, lá nos anos 40, aconteceram em espaços cedidos, como o salão da Associação Rio-Grandense de Imprensa (ARI). Em 1953, conseguiram a primeira sede, na Rua General Vitorino; em seguida, mudaram para a Av. Júlio de Castilhos. Em 1973, passaram para a sede atual, legado de uma das presidentas da Academia, Noemy Valle Rocha — a segunda mulher graduada em Medicina pela Ufrgs e a primeira ginecologista mulher a clinicar na capital.

“Simbolicamente, é importante para nós, hoje, manter esse espaço de convivência”, observa Teniza. “No meu livro (‘Casa de Noemy Valle Rocha, história e memória da ALF-RS’), tive o prazer de rever um texto da Virginia Woolf, ‘Um teto todo seu’, em que ela diz que as mulheres, para produzir, criar, escrever, precisam ter um espaço e um apoio financeiro — não podem ficar à mercê, por exemplo, de um marido ou de uma pessoa que a ajude. A mulher precisa ter essa independência.”

 

ATIVIDADES CULTURAIS

Entre 1949 e 1972, circulou a revista da instituição, Ateneia, “baluarte de divulgação da literatura e do feminismo da época, que envolveu nossas acadêmicas e deu sentido ao trabalho de divulgação da instituição”, registra a presidenta Santa Inèze Domingues da Rocha Soares. A revista trouxe o lema da ALF: “Sempre mais acima, sempre mais além”. O desejo da diretoria é retomar essa revista. Além de publicações comemorativas, nos anos 80 a ALF iniciou a antologia anual “Presença literária”, editada até hoje.

A programação cultural, aberta ao público, inclui palestras, cursos, saraus, oficinas literárias, lançamentos de publicações das acadêmicas e exposições. A busca é por aproximar a comunidade porto-alegrense, promovendo atividades que valorizam a produção das autoras e dando visibilidade à sua história, memória e acervo. A comunicação dessas atividades, hoje, é limitada, feita pelas próprias acadêmicas individualmente e pela fanpage no Facebook (fb.com/Ass.LiterariaFemininaRS). “O que acho que nossa Academia precisa é de divulgação”, registra a 1ª vice-presidenta, Clair Alves. “Várias entidades congêneres podem estar juntas conosco nessa mesma luta. Todas queremos ver o nosso trabalho reconhecido”, diz Teniza.

 

MEMORIAL FEMININO

Uma das mais recentes e importantes conquistas da ALF foi a criação do Memorial Feminino, que engloba a Biblioteca Lydia Mombelli da Fonseca e um arquivo documental. O acervo tem livros, atas, fotos e informações das obras das acadêmicas — valiosa memória da escrita produzida por mulheres no estado. Ambos são abertos à consulta gratuitamente, com agendamento. Teniza, responsável pelo arquivo, tem atendido a pesquisa universitária de diversos estados brasileiros, como a da historiadora Camila Petró, que produziu, a partir desse material, o primeiro trabalho acadêmico aprofundado sobre a ALF e hoje desenvolve na Ufrgs o seu mestrado sobre o tema.

“A questão de gênero e a questão da produção feminina nas universidades está se tornando uma realidade. A mulher era absolutamente ignorada, obscurecida pela produção dos homens, que muitas vezes até se valiam do talento das mulheres e assinavam”, avalia Teniza. “Há uma demanda significativa de intelectuais na busca histórica de nomes expressivos de mulheres que integram e integraram o quadro acadêmico.” A atual diretoria busca informatizar o Memorial, para melhor conservar tudo o que está reunido ali, mas sobrevive apenas pela anuidade das acadêmicas, por isso não há recursos para tanto.

 

VISIBILIDADE

Além de estimular a pesquisa e a produção das acadêmicas, a ALF procura reunir e preservar o que já foi feito até então. Resgata e registra, de forma pioneira, a trajetória de muitas escritoras gaúchas, nomes como Andradina de Oliveira, jornalista que escreveu em defesa do divórcio; Delfina Benigna da Cunha, poeta cega e primeira mulher a editar no Brasil; Hilda Flores, historiadora e autora do “Dicionário de mulheres”; Lila Ripoll, poeta, musicista e teatróloga, e

Revocata Heloísa de Melo, que, ao lado da irmã Julieta de Melo Monteiro, produzia o periódico feminista “O corimbo”. Três acadêmicas, aliás, já foram patronas da Feira do Livro de Porto Alegre: Maria Dinorah Luz do Prado, Patrícia Bins e Jane Tutikian. A Academia é, em suma, um espaço de visibilidade da escrita feminina no RS.

 

Presidenta? — Sim, a palavra existe. Gramaticalmente, está na língua portuguesa desde 1872, incorporada aos dicionários em 1925, como registra o estudo da equipe do Dicionário Aurélio encomendado pelo iG. Mas o seu significado foi amplificado com o passar dos tempos: o termo hoje está comprometido, pela diferença, com a elevação da mulher à igualdade de direitos. Hoje também carrega um peso político, como bem explica Pilar del Río: a palavra não existia porque não existia a função. Presidente, no entanto, continua igualmente correto para identificar o feminino no cargo. Língua viva, o português e os seus falantes vão se adaptando aos tempos.

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