A rua da paineira

Rua Siqueira Campos Extensão: da Rua General Portinho até a Av. Borges de Medeiros Foto: Joel Vargas/PMPA

 

Uma das principais vias de acesso ao Centro Histórico, a Rua Siqueira Campos é proposta muito antiga, que levou cerca de 60 anos para sair do papel. A sua primeira menção foi em 1850, quando recebeu o nome de Rua das Flores, concebida como uma nova rua litorânea a ser aberta em mais um dos muitos aterramentos do Guaíba.

O projeto foi oficialmente aprovado pelo presidente da Província (governador) em 26 de outubro de 1850, no trecho entre a Rua do Ouvidor e a Praça dos Ferreiros (atuais General Câmara e Praça Montevidéu).

Apesar disso, a Rua das Flores permaneceu no papel por muito tempo. O interesse de particulares por terrenos nesta área nobre — na época, com fundos para o Guaíba — foi uma constante, mas, por anos, nenhum foi concedido a ninguém, para não inutilizar o projeto oficial de implantação de um cais.

Isso durou pouco: em 1868, Frederico Bier recebeu autorização para ocupar um terreno onde atualmente está o edifício Bier Ullmann. A partir de 1870, várias pessoas começaram a solicitar terras, concedidas pela prefeitura, pois os vereadores consideraram não haver problema, desde que “não prejudique o canal e com a cláusula de obrigarem-se a aterrar a projetada Rua das Flores”.

 

Das Flores e da paineira

Dez anos depois, a Siqueira continuava a ter o título de “a projetada Rua das Flores”, pois ainda não tinha saído do papel. A sua planta, em arquivo, indicava a largura de 26,49 m, pois um grande movimento já era esperado, devido ao cais que seria construído.

Mais 10 anos se passaram, e, em 1900, o início da Rua apareceu pela primeira vez em um mapa publicitário. A partir de 1912, com as obras de aterro do cais, a Rua das Flores foi finalmente implementada, estendendo-se entre as ruas Gen. Câmara e Gen. Portinho. Pouco depois, em 1915, o catálogo telefônico já contava com vários estabelecimentos comerciais neste logradouro, como a Domingos & Lorenz, a Cia. Fábrica de Papel e Papelão e a Cia. Nacional de Navegação Costeira, muitas instaladas com trapiches.

O trecho passou a se chamar Siqueira Campos em 1931, a partir de um decreto do intendente (prefeito) Alberto Bins para homenagear o oficial paulista Antônio de Siqueira Campos (1898–1930), líder do movimento tenentista, da Revolta dos 18 no Forte de Copacabana e da Coluna Prestes.

Uma das marcas da Siqueira é uma paineira, que há pelo menos 70 anos está de pé na quadra entre a Tv. Francisco de Leonardo Truda e a Gen. Câmara. Nos anos 1970, essa árvore da Siqueira passou a ser protegida pelo município com os Decretos nº 5482/76 e 6269/78, que tornaram a paineira imune ao corte.

Este ano, em 21 de janeiro, com o Decreto nº 20.185, a prefeitura tentou revogar o Decreto de 1976, tirando a proteção desta e de muitas outras árvores da cidade, mas a ação foi suspensa pela Justiça a pedido da Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre, do Ministério Público — e a árvore segue protegida por lei. Entre os mais antigos, a árvore é uma referência, o que levou a Siqueira a ser chamada informalmente de “rua da paineira”.

 

Referência: “Porto Alegre: guia histórico”, de Sérgio da Costa Franco (Edigal, 2018, 5ª ed.)

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