A Resistência pintou no Mercado

Memorial do Mercado

 

A Resistência pintou no Mercado

 

Poucos são os que sabem que o Atelier Livre da Prefeitura, histórico espaço das Artes Plásticas em Porto Alegre, passou dez (1963-1972) de seus 48 anos de existência no Mercado Público, onde hoje está a agência do Banrisul. Naqueles “anos de chumbo” artistas resistiram politicamente e talentos foram descobertos nos Altos do Mercado.

 

Tudo começou em 1961, quando um grupo de jovens – entre eles Iberê Camargo, Xico Stockinger, Carlos Scarinci, Paulo Peres, Anestor Tavares e Danúbio Gonçalves – resolveram criar um espaço democrático para as artes plásticas na cidade. Sob a denominação “Encontros com o Iberê”, o Atelier ocupou inicialmente o antigo Abrigo dos Bondes da Praça XV com cursos, palestras e oficinas, atraindo principalmente o público universitário, a classe média intelectualizada da cidade. Mas em 1963 o grupo mudou para o Mercado já com a denominação Atelier Livre.

Wilson Calvancanti – o “Cava” – importante nome das Artes Plásticas no RS e professor de Gravura do Atelier, lembra com carinho do que chama os melhores anos de sua vida. Cava entrou por acaso no Atelier Livre como aluno aos 16 anos. “Eu ia lá e ficava muito tímido admirando as luzes que vinham daquela sala nos Altos pelo lado de fora do Mercado, pensava que era um dinheirão para entrar lá, o Anestor Tavares(um dos mais importantes xilogravuristas do RS também revelado no Atelier) me viu e me chamou para entrar”.

O espaço oferecia cursos pagos da manhã à noite e promovia mostras coletivas de artistas, alunos e professores muito visitadas pelos freqüentadores que passavam pelo Mercado.  Porém, também cumpriu nesse período um dos mais difíceis papéis ao longo de sua história: o de lugar de resistência à ditadura militar.

O Atelier abrigou o Comitê de Propaganda e Resistência Popular, em apoio ao então governador do Estado Leonel de Moura Brizola, além de ser a sede da produção de propaganda contra o golpe.  Vários dos professores – como Vasco Prado e Carlos Scarinci –  eram membros do Partido Comunista. “Cava” relata que o Atelier Livre chegou a ser fechado pelo Exército e conta sobre uma ocasião em que preparavam uma série de desenhos e cartazes em Xilogravura para a comemoração do 1º de maio, e que acabou sendo rasgada e queimada.

Em 1972 o Atelier deixou o Mercado, indo para a Cidade Baixa, na Rua Lobo da Costa.    Em 1978 o Atelier Livre ganhou sua sede definitiva no Centro Municipal de Cultura, Arte e Lazer Lupicínio Rodrigues. Fica a sugestão aos pesquisadores de aprofundar a investigação sobre esse capítulo da História de Porto Alegre, onde o Mercado deu as tintas da resistência.

Equipe do Memorial do Mercado Público, julho de 2009.

 

PS: Quem possuir foto desse tempo do Atelier Livre no Mercado. Por favor, entre em contato com a equipe do Memorial (fone: 3225.0397).

COMENTÁRIOS