A Porto Alegre anfitriã

Aos poucos, a história contemporânea da cidade vai sendo contada. E o melhor: através de livros, como é o caso do recente lançamento “Tradição e arte em receber”, do historiador Gunter Axt, com fotos de Fernando Buenos e design gráfico de Flávio Wild. O livro comemora os 75 anos Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região (Sindha) e foi lançado recentemente no Memorial do Rio Grande do Sul.

 

CENTRO HISTÓRICO, por Emílio Chagas

A obra, de 200 páginas repletas de registros fotográficos antigos e contemporâneos, recupera boa parte da história dos bares, cafés, restaurantes e hotéis de Porto Alegre. Tudo isso regado a boas (e folclóricas) histórias sobre cada um deles — e seus personagens. O interessante é que, ao mesmo tempo, o livro traça em paralelo a trajetória da cidade dessas últimas décadas. Para ficar no caso dos hotéis, por exemplo, o autor “passa” por dois dos mais importantes deles, do ponto de vista histórico: o Grande Hotel e o Hotel Majestic (atual Casa de Cultura Mario Quintana), que abrigavam personalidades políticas, artistas e famosos.

2Os dois hotéis, ambos no coração do Centro Histórico, foram construídos nessa região por causa do então porto, por onde chegavam os navios quando o Guaíba vinha até a atual Praça da Alfândega. Outro registro importante que mostra como a capital mudou: no começo do século passado, eram apenas 50 empreendimentos do gênero — hoje são mais de 120. “Nosso setor cresceu em nível exponencial graças aos pequenos negócios, na base de muito trabalho de microempresários e estabelecimentos familiares. Orgulha-nos resgatar essa memória para nos inspirarmos e jamais estagnar”, diz o presidente do Sindha, Henry Chmelnitsky.

 

Bares e personagens

 

Imagem: divulgação

“O Sindha me pediu para contar também um pouco da história da hospedagem e da alimentação. Não se queria um livro puramente institucional ou laudatório. Recebi carta branca para desenvolver meu texto e minha pesquisa. Abordei com liberdade as questões que me pareceram pertinentes para um esforço de síntese como esse. Convidei para integrarem o projeto o fotógrafo Fernando Bueno e o designer Flávio Wild. Formamos um time entrosado e criativo”, diz o autor do livro. Ele afirma que viveu intensamente a vida gastronômica, boêmia e cultural da cidade, especialmente entre os anos 1980 e 2010.

 

“São muitos os lugares que me marcaram. Lembro com carinho das noites nos bares Ocidente, Elo Perdido, Fim de Século… Eu mesmo produzi algumas festas no Ocidente, no Mea Culpa e no Callas. Recordo com carinho das pizzarias da Zona Sul, em especial o Fratello Sole, do Fausto.” No Centro Histórico, lembra de ter frequentado restaurantes como o Devon, o Duhran, o restaurante do Hotel Everest, a Macrobiótica, os cafés da Casa de Cultura Mario Quintana. O Mercado Público, afirma, sempre foi uma experiência única, com destaque para a Banca 40, e o (antigo) Naval. “Poucas cidades no mundo podem se orgulhar de possuírem um restaurante funcionando há 130 anos, como o Gambrinus. Ninguém esquece também das grandes churrascarias de Porto Alegre, como Santo Antônio, Barranco, Komka, Na Brasa, Fogo de Chão, entre outras. Mas é uma lista muito extensa, dezenas mais precisariam ser citados.”

 

Porto Alegre de ontem e de hoje

Cada época tem os seus encantos e o seu charme, acredita Gunter, sem saudosismos. Acha que a cidade de hoje tem estrutura, digamos — mais leitos nos hotéis do que há 30 anos, por exemplo. “Há qualidade e diversidade de opções gastronômicas, como restaurantes de culinária peruana, mexicana, asiática, que eram raros no passado recente. Há mais opções do que se tinha, e elas estão espalhadas pela cidade, quando antes tudo tendia a convergir para um centro. Os bares e clubes noturnos estão melhor instalados e equipados, com mais conforto e segurança.” Porém, para ele, é preciso resgatar a autoestima do porto-alegrense, mantendo a cidade limpa e segura. “A derrubada de prédios históricos, lá por meados do século XX, foi um desastre, uma tragédia. Mas ainda resta muita coisa de valor, que precisa ser conservada.”

Segundo ele, é preciso ainda investir em acervos e em programação cultural para quem visita museus, feiras literárias, shows. “Espaços culturais revitalizam e dinamizam o entorno. O futuro de Porto Alegre passa por atrair o turismo cultural e de eventos.” Acredita que a diversidade de etnias e origens de Porto Alegre contribui na sua formação, personalidade e cosmopolitismo. E um resgate da pujança e importância da capital passa pela projeção da sua própria identidade, pela preservação do patrimônio, pelo incremento do acervo cultural, pela dinamização da cultura, pelo reforço da educação e da saúde de excelência, conclui.

 

COMENTÁRIOS