A melancolia e riqueza da arte cemiterial

A melancolia e riqueza da arte cemiterial (I)

Por Emílio Chagas 

A caminhada poderia ter sido feita sob a “Marcha Fúnebre”, de Chopin, ou a “Sinfonia nº 5”, de Gustav Mahler, naquela bucólica e gélida manhã de  sábado, quando o pequeno grupo adentrou o Cemitério da Santa Casa, o mais antigo da cidade, conduzido por Luiza Neitzke de Carvalho, pesquisadora de Arte Funerária, professora, mestre em Artes Visuais pelo IA/UFGRS, especialista em Patrimônio Cultural pelo IAD/UFPEL,  membro-fundador da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC) e participante da Association of Gravestone Studies (Massachusetts/EUA). Em pouco mais de duas horas, ela deslindou para o atento público um novo olhar sobre esta arte, tida como melancólica.

 

            “Veremos que ela guarda um grande tesouro, de muita sensibilidade. Veremos obras de grandes artistas da arte funerária, de valores religiosos, sociais, econômicos, artísticos e históricos nos dois cemitérios, o da Santa Casa de Misericórdia e o Luterano”, anunciou Luiza. Mas primeiro fez uma pequena introdução sobre a história dos cemitérios da cidade, explicando que, no século XIX, eles se localizavam no centro da cidade. “Em 1844, o Duque de Caxias veio visitar a cidade e se horrorizou com as suas condições de saúde. Os sepultamentos eram no centro, na lomba do cemitério, em declive. Com as chuvas, os sepultamentos vinham à tona, era um caso de saúde pública”. A partir daí os cemitérios foram transferidos para regiões mais afastadas, como já era uma tendência mundial, indo para a Azenha, por ser numa parte mais alta da cidade. A ligação era feita através de bondes, inclusive a famosa  machambomba, a partir de 1864, que trazia os passageiros, principalmente nos dias de finados – que viria resultar na criação da Carris, em 1872. No entorno começaram a surgir as marmorarias, com “um comércio muito fecundo, porque colocavam ornamentação tumular nos cemitérios, praças monumentos, pias batismais, trabalhando com granito, bronze e mármore”.

 

A simbologia dos túmulos e pranteadoras

 

            Uma das mais famosas e mais atuantes, revela Luiza, era a Casa Aloys, inaugurada em 1884, com funcionamento até 1961 e uma longa trajetória na colocação de arte funerária em todo o estado. Muitos túmulos com obras das mais expressivas, levando a assinatura das marmorarias mais famosas, se encontram na entrada, na alameda dos mausoléus com relevos, crucifixos, vitrais, altares, figuras diversas de Cristo e muitos detalhes diferenciados. Um dos primeiros é o de Otávio Rocha, ex-prefeito de Porto Alegre, com várias representações da pátria, pergaminho com o Plano Diretor da cidade, prédio da prefeitura, Auditório Araujo Vianna e “imagens idealizadas da cidade”. O conjunto escultórico é do espanhol André Arjonas, o escultor mais importante da Casa Aloys e da cidade. Luiza chama a atenção para o detalhe de a obra estar assinada, o que é muito raro – e o que a torna ainda mais singular e importante. As famosas pranteadoras também mereceram demoradas explanações da professora. São vários exemplares de esculturas em mármore branco, de Carrara, carregadas de simbologias e representações. A maior parte delas é composta por belas esculturas femininas, levando flores nas mãos, com expressões chorosas e sorumbáticas, caracterizadas pelas vestuária, geralmente longos mantos, e vários detalhes, como cintos, fivelas, presilhas, botões, fíbulas. “Flores e plantas têm uma grande simbologia, representam de certa maneira a vitória. São ícones que vêm da Antiguidade, os soldados romanos eram recebidos com elas. Roseiras nos pés da escultura simbolizam Afrodite, a divindade do amor. Dentro do Cristianismo, quando a rosa perde os espinhos, passa a significar pureza”, explica.

 

Cristos e anjos

 

            São vários exemplares de pranteadoras: a do tipo clássico, ajoelhada, com expressão melancólica (mãos levadas ao rosto), olhar para o além, flores aos pés, e algumas em forma de anjos, que Luiza define como “a clássica simbologia funerária”. Um dos exemplares, por exemplo, apresenta vestimentas greco-romanas, presilhas, fíbulas na manga, buquê de flores na mão, (simbologia de lembrança), ombro à mostra, revelando sensualidade. Um pouco mais abaixo dos túmulos repletos de pranteadoras, uma pérgola, construída com colunas ornamentadas de plantas e caramanchões, exibe vários monumentos funerários, desta vez em bronze. Pranteadoras, anjos e um grande predomínio de Cristos. “É interessante a quantidade deles, principalmente em bronze. O mais peculiar é o Cristo dos botões, (um botão no manto), diferenciado, com o dedo levantado, que ressuscita os mortos”, observa. Tem ainda o Cristo Bom Pastor, o Cristo pantocrata, de André Arjonas, apontando para cima, indicando o Soberano, o Cristo crucificado e a famosa escultura do o Coração de Cristo, “a figura mais emblemática”, feita pelo arquiteto Leone Lonardi. Outra obra bem peculiar é “O Beijo da Morte”, de Victório Livi, marcando a transição entre dois amantes, “onde um fica e outro vai”, com um manto envolvendo os corpos, fechando em cima da cabeça do homem. Situado no mausoléu da família Loureiro da Silva, é uma réplica de um monumento existente na Itália.

 

Referências europeias

 

            Cada obra tem muitas peculiaridades. Uma das que mais chama a atenção, merecendo destaque de Luiza, leva a assinatura do alemão Alfred Adlof, muito ativo nas marmorarias da época, tendo, inclusive, a sua própria. Nela o artista perpetra um novo olhar sobre o papel da mulher daqueles tempos. Normalmente vista como uma figura frágil, chorosa e submissa, bem de acordo com a filosofia positivista vigente (por trás de um grande homem sempre tem uma grande mulher), nesse monumento é o contrário, apresentando uma mulher forte, que consola o homem. Outro detalhe é o busto desnudo. “A nudez é muito comum em São Paulo, Rio de Janeiro, Uruguai e Argentina, mas aqui não, salvo algumas esculturas importadas da Alemanha e Itália”, informa Luiza. Ela também destaca “um dos pontos mais aguardados das caminhadas” desse cemitério: a representação do anjo do Juízo Final, imagem belíssima de um anjo feminino que, diferentemente das pranteadoras, apresenta uma expressão altiva, desafiadora, “representando o momento de transição na tipologia do anjo na figura funerária, antes mais contida, fria, de elevação divina. Este, ao contrário, encarna um ideal mais mundano de sofrimento”, explica. A escultura original é de 1852, feita pelo italiano Julio Monteverde, e está no cemitério de Staglieno, em Gênova. É conhecida como anjo do Juízo Final porque leva uma trombeta que seria usada para conclamar os mortos no dia do julgamento. Outra versão é que a corneta seria uma alusão à deusa Clio, alegoria da história, que trombetearia os feitos históricos dos falecidos.

 

(continua na próxima edição)

 

Fotos: Emílio Chagas

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