A marca das águas

Uma placa de metal, feito cicatriz, registra nas paredes do Mercado uma das maiores calamidades que atingiu Porto Alegre, a enchente de 41.

 

Chovia sem parar. Começou na Semana Santa, em abril de 1941, e seguiu maio adentro: 22 dias chovendo. Nos dois meses, 791 milímetros de água despencaram do céu, somente na capital. O rio Guaíba, abastecido pelas cheias dos rios Caí, Gravataí, Jacuí e Sinos, foi subindo. Em maio, transbordou, alcançando incríveis 4,76 m acima do nível normal, a maior marca atingida até hoje (para comparar, as chuvas deste mês levaram o rio a 2,89 m). As águas do Guaíba subiram pelo cais e tomaram a cidade. O Mercado Público, coração da capital, foi um dos primeiros atingidos. As águas invadiram os corredores, arrastando tudo o que encontraram pela frente. Mercadorias passaram a flutuar, junto à mobília destruída. Um grande trecho do Centro Histórico ficou debaixo d’água: Correios e Telégrafos, Estação Ferroviária, Paço Municipal… As águas subiram a Borges de Medeiros e foram parar na Rua da Praia. A cidade ficou às escuras e barcos substituíram bondes, transportando a população em trajetos improvisados. Mesmo quando a chuva parou, a enchente seguiu – tudo porque o vento impedia o escoamento. O dia mais crítico foi 8 de maio, quando a água atingiu a altura de 1,5 m nos corredores do Mercado. Este registro está marcado em metal em uma das paredes do prédio, junto ao portão do Largo Glênio Peres.

Foto: Vanessa Souza

A enchente de 41 foi um dos maiores traumas da história porto-alegrense. Foram 70 mil pessoas desabrigadas, 1/4 da população da cidade na época. O mura da Mauá foi uma herança dessa cheia. Os prejuízos foram imensos; as marcas da tragédia, na cidade e na memória, também. Somente em fins de maio o Mercado pôde reabrir seus portões, encontrando força para se recuperar e seguir em frente. Força que, se pudesse, emprestaria às famílias que hoje sofrem com as enchentes pelo estado.

 

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