“A Ipanema é uma instituição cultural da cidade”

“A Ipanema é uma instituição cultural da cidade”

  

Colorado, “desde sempre”, vindo de Santana do Livramento, Cláudio Cunha é uma das vozes mais marcantes destes últimos tempos da Rádio Ipanema, em que vem fazendo a cabeça da galera.  Leitor de Jack Keruac e James Joyce,  o apresentador se revela um pouco aqui para o Jornal do Mercado.

 

  

 

O começo

 

     Comecei como operador de áudio em 1994. Mas existia na década de 1980 um programa chamado Clube do Ouvinte e com 15 anos de idade eu fiz o primeiro que foi ao ar, sobre a banda Yes. Outra relação minha excêntrica com a rádio é o fato do primeiro cd player que entrou aqui nos estúdios da empresa Bandeirantes de Porto Alegre foi o meu que eu ganhei lá com meus 16, 17 anos, do meu pai. Não era muito popular no mercado e fizemos um especial aqui na rádio no horário da Kátia Suman, que na época estava grávida do Bruno Suman. Enfim, comecei aí minha relação com a rádio, a trabalhar efetivamente na Bandeirantes, a partir de 1994, como operador de áudio da Ipanema FM. Fiquei nessa função menos de seis meses, até porque eu era regra três. Eu fazia as férias dos outros ou cobria “buracos”. Quando alguém tinha que faltar, chamavam a mim. E comecei efetivamente na produção da rádio a partir de fevereiro de 1995, trabalhando como produtor e lá no meio de 1995 já estava de locutor e fazendo a madrugada. Hoje estou assinando ¼ da programação diária da rádio. Na madrugada, das 2h às 4h, no Rock em Geral. Das 6h às 7h da manhã Rock em Geral Acústico, no ar, Ao Vivo e a Cores entre 15h e 18h. Das 15h às 17h com o Dinâmico e das 17h às 18h com o Power Pop. Fora isso, tem o Arrasa Quarteirão, que vai ao ar na madrugada de segunda para terça, da meia noite às 2h da manhã e também o Boss Sounds, o melhor da música jamaicana.

  

Cláudio Cunha por Cláudio Cunha

 

           Ah, sou um cara apaixonado por música, que tem a sorte de estar trabalhando com uma coisa que eu amo, de estar sendo remunerado por estar fazendo uma coisa independente da atividade profissional que eu estivesse destinado a exercer no mundo, basicamente é isso. 

     O que é ser Ipanêmico? Tenho nojo do termo Ipanêmico. Ipanêmico é um só, que é o Cláudio Júnior Costa, que tem esse apelido. Prefiro ouvinte, Ipanêmico para mim não significa nada. Se não fosse radialista seria motorista de táxi. Coisas boas e ruins da atividade? Coisa boa é tudo, ter relação com música, poder ir a shows, poder ter acesso a esse tipo de informação, ter essa relação com essa cultura bacana que trabalhar na Ipanema nos proporciona. É um veículo único, é um diferencial no meio radiofônico a nível brasileiro. De ruim? A única coisa mesmo que a gente pode reclamar e que é estritamente do trabalho, é cumprir horário, fora isso, o resto é tudo alegria.

  

Estilos – pop, rock, reggae…

 

      Rock é americano por natureza, pronto! Os campeões de pedidos na rádio são The Beatles. Não tenho nenhuma identificação com a reggae music. Gosto de música no geral, sem colocar linhas divisórias, linhas fronteiristas nelas, não me limito ao reggae. Acho que o entendimento mínimo de música com o conceito do rock e do pop, um ouvido educado, e uma percepção, que eu realmente não sei dizer de onde que vem. Acho que é da familiaridade com a música, respeitar a música sempre, independente de onde ela vem, da classe social dela, do gênero. Tem que ter a mente aberta para música, para qualquer manifestação cultural proveniente dela.  O que é o pop? É uma música que atinge o maior número de pessoas. A Ipanema tem o seu caráter pop. Eu não me importo de ser chamado de pop, assim como de rock. Se eu for escolher um termo, escolho música, sabe? Agora o termo que tu quiser utilizar não faz diferença. A gente toca tanto a música pop, música pop é rock também, no meu conceito de pop. Uma música instrumental de 20 minutos pode ter esse caráter (pop).

  

Programação

 

      Procuro ser atual, estar antenado com a atual movimentação musical relacionada com o rock, sem esquecer nunca das raízes, da programação que foi imortalizada por essa rádio. Tem uma música do Al Di Meola, John McLaughlin e Paco de Lucía, o Mediterranean Sundance que não tocaria numa programação pop normal. É tipo, aquela parada se popularizou e os ouvintes pedem, apesar de ter tocado só aqui na Ipanema FM. Procuro não esquecer que a gente foi importante nesse momento e preservar tudo que a Ipanema fez em todas suas épocas, todos os nomes que passaram por aqui. É aquele mix, estar atualizado sem esquecer o passado, o que fez esta rádio ser o que ela é hoje, na minha opinião, uma instituição cultural. Relação com os ouvintesEm relação aos ouvintes e pedidos, não existe uma fórmula nem uma receita, a gente procura seguir a percepção. Tem aquele ouvinte que pede a mesma música todos os dias, vou atender uma vez e não vou mais dar bola, até ele mudar de posicionamento. Como tem também aquele cara que pede uma música que é de interesse geral, a gente vai na contextualização. Tem que ver como tu percebe o teu ouvinte. Eu percebo, modéstia à parte, como uma pessoa inteligente, interessado em cultura, e aberto à aprendizagem. Como percebo minha influência nos ouvintes? Perceber, não percebo, estou apenas juntando um punhado de músicas que foram compostas por outras pessoas e tento botar elas num pacote de uma maneira agradável para o ouvinte da Ipanema que, como disse, é um cara aberto a novas idéias, não vai se surpreender se eu botar um música diferente, um reage natiruts, com eletrônico batidão ou um heavy metal gritado. Para mim está tudo no mesmo saco, percebo quando existe este background dos ouvintes, quando dizem “pô, descobri aquela banda no teu programa”. Me sinto feliz, cumpirndo o papel ao qual me propus a fazer. 

 

Mercado Público

 

      Eu diria que, assim como a Ipanema é uma referência cultural da cidade, o Mercado Público é um cartão postal, uma referência de Porto Alegre. Não dá para imaginar o andamento da cidade sem a presença dessas instituições, tanto o Mercado como a Ipanema. Eu particularmente estou sempre lá comprando aquele café, que é o melhor do mundo, apesar de eu não conhecer todos os cafés do mundo, mas dos que eu conheci, é o melhor. Como moro na Auxiliadora vou duas ou três vezes por mês lá, mas nas poucas vezes que fui, estive almoçando no Naval, na Banca 40, que eu recomendaria. Ele tem um ar provinciano que me agrada, faz com que a gente se sinta meio que em casa. Música? Seria bem bacana se tivesse. Blues? Não, me lembra mais Lupicínio Rodrigues, uma coisa de raiz, uma coisa brasileira. Mas também acho que não tem esta restrição. Acho que ele pode ser cenário para blues, rock, sertanjeo, para qualquer tipo – jazz, aquele jazz mais redondinho, mais ragtime.

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