A ideologia da estatuária de Porto Alegre, em livro

Centro Histórico, por Emílio Chagas

A ideologia da estatuária de Porto Alegre, em livro

Para orgulho da cidade, Porto Alegre é conhecida pela sua riquíssima estatuária, considerada um fenômeno no Brasil e até na América Latina. Orgulho em termos: também é conhecido o lamentável estado da maioria dos nossos monumentos e estátuas, praticamente em abandono, vítimas de vandalismos e roubos – embora devamos registrar que uma recente ação patrocinada pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil RS (Sinduscom) tenha recuperado mais de uma dezenas deles no Parque Farroupilha. Mas o fato é que Porto Alegre viveu uma verdadeira febre estatuária entre 1880 e 1930, com destaque para o período positivista. O livro “Estatuária e ideologia”, do professor Arnoldo Doberstein, relançado pela Editora da Cidade, da Secretaria Municipal da Cultura/PMPA, faz um estudo crítico desse quadro, especialmente do período de 1900 a 1920.

A ideologia da estatuária de Porto Alegre, em livro - Jornal do Mercado

Considerado um dos livros básicos sobre o tema, assim como “A Escultura Pública de Porto Alegre”, de José Francisco Alves, professor de escultura do Atelier Livre da prefeitura, o livro foi lançado pela primeira vez em 1992. De lá para cá, vem servindo de referência para estudos sobre a estatuária da cidade. O livro resultou de uma tese de mestrado, em que o autor desvenda e tece teses sobre o significado das muitas esculturas e edificações históricas da cidade, a partir de um criterioso mapeamento de monumentos. No estudo, logo despontam rápidas, mas precisas pinceladas sobre o cenário político e social que a cidade viveu nas duas primeiras décadas do século XX – com destaque para o Positivismo, escola filosófica e política criada por Auguste Comte que enfatizava a importância da hierarquia, da autoridade, da tradição e de valores morais na vida social. A linha do pensamento positivista está expressa na monumentalidade de alguns dos prédios mais importantes do Centro Histórico, como a Prefeitura Municipal, o Palácio Piratini, a Biblioteca Pública, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul e o monumento ao centenário de Júlio de Castilhos – talvez o mais importante líder positivista do estado.

Os múltiplos aspectos da estatuária

 O livro está dividido em cinco capítulos: “O Positivismo no fachadismo oficial”, em que são analisados alguns dos principais prédios da cidade; “O Positivismo nos monumentos e túmulos; “A propaganda no fachadismo civil”, em que são descritas obras da sociedade civil, como a lendária Confeitaria Rocco, a Previdência do Sul (atual Banco Safra), a Cervejaria Bopp (depois Brahma, atual Shopping Total); “Estatuária, teoria e conceitos”, capítulo em que o autor se dedica à parte mais teórica, e “Estatuária e determinações históricas”, no qual é traçado um breve painel da situação do Rio Grande do Sul na segunda metade do século XIX, os principais construtores, como o alemão Rodolfo Arons, considerado “o engenheiro que mais influiu na mudança fisionômica da capital do estado, entre 1900 e 1920”. Doberstein, também autor do importante “Estatuários, Catolicismo e Gauchismo”, destaca, porém o que ele define como “Quadriênio Glorioso”, ou seja, os anos 1910-14, um período em que “se instaura na elite dirigente e na burguesia triunfante o projeto de transformar a fisionomia da cidade”. Ele cita um trecho de um editorial do Correio do Povo da época, onde é informado que estão sendo construídos, naquele momento, 520 prédios. Eram os novos tempos, consequência do desenvolvimento econômico e social que o estado vivia.

O surto escultórico

Doberstein faz uma contextualização do desenvolvimento do estado no período, destacando a proliferação das ferrovias (também obra dos engenheiros alemães) e as consequências delas, como o crescimento econômico e social. Crescimento esse que trouxe, inevitavelmente, o surgimento de inúmeros prédios e construções por todo o Rio Grande do Sul. Tais construções, tanto sob a égide oficial como civil, reproduziam, em geral, os padrões da arquitetura vigente europeia – e sua consequente ideologia. Surgem, então, os suntuosos prédios e palacetes. “[…] A conclusão geral é que na estatuária fachadista e monumental produzida em Porto Alegre nas duas primeiras décadas do século XX foi interpretada  a ideologia de dois grupos de patrocinadores. Na estatuária fachadista e monumental oficial, traduziu-se o ideário positivista do grupo que controlava o aparelho de Estado, enquanto que na estatuária fachadista civil plasmou-se a ideologia de seus patrocinadores, seja enquanto homens de negócios, seja enquanto descendentes de imigrantes”, escreve o autor. 

                   

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