A história da cidade nos seus prédios históricos

Centro Histórico, por Emílio Chagas

A história da cidade nos seus prédios históricos

Orientada por Cláudio Calovi Pereira, professor de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, a caminhada fez um resgate de alguns casarões e instituições tradicionais do Centro Histórico. O roteiro também incluiu a pouco conhecida (e visitada) escadaria da Rua São Manoel, entre outras curiosidades.

 

 

O Viaduto Otávio Rocha

No início, uma parada estratégica para rápidas observações sobre o Viaduto Otávio Rocha, uma das obras mais monumentais da cidade e uma referência em todo o Brasil. A abertura, em 1924, da Avenida Borges de Medeiros, foi a primeira grande intervenção urbanística em Porto Alegre, registra Calovi. Antes dela, só havia uma única avenida na cidade, a Sepúlveda, de 1910, ligando a Praça da Alfândega com os pavilhões do porto. O então prefeito Otávio Rocha abriu a avenida, e o arquiteto gaúcho Manoel Itaqui, projetou o viaduto. Segundo o professor, não se trata simplesmente de uma obra viária, não apresentando a hostilidade dos viadutos de hoje, que servem apenas como passagem do trânsito. “O viaduto, que começou em 1929 e foi concluído em 1932, incorpora o trânsito da cidade e apresenta escadarias suaves. É um conceito de obra viária que não existia em Porto Alegre”, resume. Isso, sem falar da sua beleza arquitetônica.

 

A Rua Duque de Caxias e suas instituições

A antiga Rua da Igreja, já desde a fundação da cidade, abriga suas construções mais famosas e importantes: a Catedral Metropolitana e o Palácio Piratini. Desde a transferência da capital de Viamão para cá, o engenheiro militar capitão Inácio Montanha havia destinado essas áreas como estratégicas. Ambos os projetos iniciais foram demolidos para dar lugar a projetos mais imponentes e suntuosos. O novo Palácio começou a ser construído em 1909, projetado pelo arquiteto francês Maurice Gras, expressando parte do classicismo francês. “A Igreja não quis ficar atrás em termos de monumentalidade”, compara Calovi. E, por isto, foi encomendado um projeto a Giovanni Battista Giovenale, arquiteto da cúria romana – que nunca veio a Porto Alegre – com o início da construção em 1919.

 

 

A antiga Assembleia Legislativa

O prédio, de número 1029, quase ao lado do Piratini, também conhecido como Casa Rosada, informa o professor, passou por muitas alterações, principalmente na sua fachada. A parte inferior é a mais antiga, a superior foi acrescentada anos mais tarde – num processo de “modernização”, quando o estilo colonial português começou a ser modificado (e substituído) pelo europeu, como reflexo da independência do Brasil. As janelas eram retangulares, no estilo português, e as telhas de barro portuguesas. Era a antiga sede da Casa da Real Fazenda, onde eram guardados os impostos recolhidos pelos portugueses. A reforma, processada pelo arquiteto alemão Phillip Von Normann, se deu por volta de 1850, para que o prédio, além de minimizar os vestígios coloniais, fosse transformado, também, na Assembleia Legislativa do Estado.

 

 

Solar dos Câmara

Trata-se de uma casa do início do século XIX, mais precisamente de 1827. Assim como outras, também varreu o estilo colonial português inicial, em 1850, sendo transformado num edifício de feições clássicas. Típica residência da nobreza durante o Império, teve a fachada modernizada, além de ganhar vários elementos neoclássicos, caracterizando-se por um estilo mais limpo, sem muitos adornos.

 

Antiga Secretaria de Obras

Outro importante casarão da Duque de Caxias, foi concluído em 1911. Um prédio eclético, com profusão de ornamentos e elementos decorativos, mesmo sendo considerado um estilo neoclássico.

 

 

Casa dos Chaves Barcellos 

Uma imponente casa, que demonstra bem o estilo da região e a época da nascente metrópole. Construída para a tradicional família Chaves Barcellos, foi projetada por aquele que é considerado o mais importante arquiteto da cidade no começo do século XIX: Theodor Wiederspahn, responsável por vários marcos arquitetônicos de Porto Alegre, como o MARGS, o Ed. Ely, a Casa de Cultura Mario Quintana, a antiga Cervejaria Bope, a Faculdade de Medicina, o Banco Safra e vários outros prédios e casas.

 

 

 

Escadaria João Manoel

Tinha a função de ligar as partes alta e baixa da cidade, a partir da Duque de Caxias. A opção pela escadaria deveu-se à impossibilidade da abertura de uma rua na chamada Ladeira da Formiga, extremamente íngreme. Assim, a família Chaves Barcellos, proprietária do terreno, contribui com parte dos recursos para a prefeitura construir a escadaria, tendo Christiano Gilbert como arquiteto. Ele também assina obras importantes na cidade, como o prédio do HPS, o Centro de Saúde Modelo, as pontes do Arroio Dilúvio e o antigo Abrigo dos Bondes, entre outras. “A parte baixa, que era um pouco abandonada, começou a construir casarios, também com auxílio dos Chaves Barcellos. Uma fita de casas com o mesmo padrão, com porta, janelas menores em cima e maiores nas laterais e sacadas”, registra Calovi.

 

Cúria Metropolitana

“É o primeiro grande palácio da cidade, antes do Piratini, do Paço Municipal”, avisa Calovi. A construção é de 1867, dos tempos do Império, portanto. “Ele se aproveita da topografia, com grande inclinação, sendo construído tirando partido disse”, continua o professor. A Cúria apresenta um grande muro de entrada, com uma escadaria monumental que leva até a base do pórtico de colunas. A seguir, uma enorme esplanada aterrada, com dois volumes, “como que cercando o edifício, dando esse caráter monumental”, como diz Calovi. O projeto inicial era de um seminário católico, mas, ao mesmo tempo, dá evidências que a Igreja já tivesse ideia de que funcionasse como Cúria Metropolitana, ou seja, o palácio episcopal da cidade. Na época, lembra o professor, não havia aterro, vindo as águas do Guaíba até às proximidades da região, e as antigas praias, o que permitia uma bela vista, com ilhas do Guaíba e a zona sul, ao fundo.  O prédio da Cúria foi iniciado pelo arquiteto francês Jules de Villain e concluído por um arquiteto alemão, Johann Grünewald, e configura-se como uma obra em estilo neoclássico, com detalhes neogóticos acrescidos pelo último arquiteto. “A Cúria está sendo restaurada e deverá ser um espaço cultural, destinado pela igreja”, conclui o professor.

 

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