A futura Pinacoteca em um casarão que preserva o passado da cidade

A futura Pinacoteca em um casarão que preserva o passado da cidade

Por Emílio Chagas 

Primeiro passeio de 2013 do Programa Viva o Centro a Pé, o roteiro foi orientado pelo arquiteto Luiz Merino, com saída do Caminhos dos Antiquários, tendo a futura Pinacoteca Ruben Berta, na Duque de Caxias, como destino final. Merino é mestre em Planejamento Urbano e Regional, consultor do Projeto Monumenta e integrante da equipe da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural – EPHAC.   

 

Partindo da recém inaugurada praça Daltro Filho, tendo o arquiteto à frente, o pequeno grupo de pessoas deslocou-se em direção ao seu destino. A primeira parada foi em frente ao edifício Ponche Verde, na esquina da Borges de Medeiros com Fernando Machado, para uma breve descrição do Viaduto Otávio Rocha. “É um patrimônio tombado da cidade, mas poderia ser do Brasil”, disse Merino sobre a obra do arquiteto Manoel Itaqui, construída nas primeiras décadas do século XX. Ele destacou a “estrutura gigantesca, moderníssima para a época, sem aquela aparência de viaduto, com qualidade e arte urbanística, escadas, vãos para atenuar a subida, lojinhas embaixo, luminárias, estatuária e pavimentação de ladrilhos hidráulicos”. Ele informou que, depois de 12 anos da primeira reforma, já tem um orçamento para novas obras, que devem começar em breve. A seguir, a rua Fernando Machado, antiga rua do Arvoredo. “Era hábito no Brasil dar nomes populares, apelidos, para as ruas. Muitos ficaram, outros se perderam quando trocaram pelos oficiais”, disse Merino, informando que em breve serão colocadas placas com os nomes reais e apelidos nas ruas do Centro Histórico.

 

A Cúria, imponência na Rua do Arvoredo

 

A Rua do Arvoredo ficou famosa como a do açougueiro que matava pessoas para fazer linguiça. Ela mantém, como observa Merino, um “caráter muito raro nas cidades brasileiras: casas como se fosse um subúrbio dentro do Centro, o que não se encontra mais em outras capitais”. Rua do início da fundação da cidade, a Fernando Machado ainda se conserva com características residenciais, desde “aquela época”. Nos seus primeiro registros já se mencionavam casas com tetos de palha, que aos poucos foram substituídas pelos casarios das classes mais populares, no século XIX. Até hoje, na esquina da General Auto, existe ainda um dos cinco exemplares das chamadas “casas-fita”, que mais tarde se transformariam em cortiços, hoje só existentes no Rio de Janeiro e São Paulo. Eram lugares de moradias coletivas e foram combatidos pelo então Intendente Otávio Rocha, que queria tornar o centro da cidade mais aristocrático. Mas, o que valorizou a rua foi o erguimento da atual Cúria Metropolitana, uma imponente e magistral construção na esquina da rua Espírito Santo, fundos da Catedral, criada para ser o seminário dos padres. Antes, porém, em torno de 1870, era o antigo cemitério da Catedral, até que os cemitérios localizados no centro da cidade fossem proibidos. Ordenada por Dom Sebastião Laranjeira, a obra foi concluída pelo engenheiro Johann Grünewald, com características de arquitetura neoclássica, com colunas em estilo dórico e referências a templos gregos.

 

Ligando a cidade baixa, com a parte alta – a Escadaria São Manoel

 

     Ao lado da Cúria ainda existem vestígios de uma ruela, praticamente escondida, junto a uma estação de bombas do DMAE, cuja abertura foi solicitada por Dom Sebastião, para ligar a então rua do Arvoredo com a Praça da Matriz. O arquiteto diz que no fim dela ainda hoje existe um recanto, comescada, fonte e colunas dando a sensação “de estar em Roma”. Ele revelou que existem planos do Projeto Monumenta de reabertura dessa rua. Também informou que existem suspeitas de que o famoso açougue do Crime da Rua do Arvoredo seria naquela altura, pela referência de um poço que existiria no local – talvez hoje a casa de bombas? Também com este intuito de ligar as partes baixa e alta da cidade, surgiu a escadaria São Manoel, financiada pela família Chaves Barcellos e executada pela prefeitura, com projeto de Cristiano Gilbert. Uma das funções da escadaria era servir como um mirante para ver o Guaíba e os morros. “Infelizmente o Plano Diretor não considerou isso e permitiu a construção de vários prédios. Isto explica, em parte, o abandono em que ela se encontra hoje. Mas há projeto de restauração para daqui um ou dois anos”, disse Merino.  No começo da escadaria, na Fernando Machado, ainda estão conservadas – algumas até restauradas – as nove casas-fitas, também construídas pela família Chaves Barcellos.

 

Casa dos Chaves Barcellos, Casa dos Azulejos e Pinacoteca Ruben Berta

 

Acima da escadaria, num terreno muito maior que a casa, o que não era comum na época, situa-se o casarão da família Chaves Barcellos, que demonstra bem a suntuosidade de uma época. Construído por Theodore Wiedersphann, a residência de um só pavimento projeta-se como um palacete, cercada de um jardim. “O que mais chama atenção é a área redonda na fachada, com colunas jônicas, causando um impacto muito grande”, registra Merino. A casa apresenta muitas dificuldades de restauração por uma série de problemas administrativos. Do outro lado da rua, o que sobrou da chamada Casa dos Azulejos: apenas a fachada, com um recuo onde se ergue o edifício que a ameaçou nos anos 70 – só não foi derrubada porque houve uma grande movimentação popular. Finalmente, a casa onde vai operar a futura Pinacoteca Ruben Berta, com suas obras em fase final. Construída em meados de 1850, “era uma residência que foi sendo abandonada, a última moradora doou para o Exército, depois a prefeitura  negociou a sua aquisição e o Monumenta decidiu colocar a Pinacoteca aqui”, informou Merino. Doada por Assis Chateaubriand para Porto Alegre, a Pinacoteca foi inicialmente alojada no MARGS. O casarão, com jardim, porão e até uma cisterna que voltará a funcionar, vai abrigar espaços de exposição, auditório, sala de restauro e conservação de quadros, memorial, área administrativa, pátio nos fundos e um café, entre suas salas, escadarias de mármore e corredores. “A casa é uma fonte de reflexão, e informação e por isto está previsto este memorial, com painéis, contando a sua história”, finalizou Merino.

 

Fotos: Emílio Chagas

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