A chegada açoriana

Nesta edição está a segunda parte da história açoriana no estado, população que chegou aqui em meio a um cenário de guerras e disputas. Esta matéria faz parte da série sobre as culturas formadoras do RS.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

O Tratado de Madri (1750), que passava a região dos Sete Povos das Missões para Portugal, tornou necessário ocupar para garantir esse território. Com a vinda de açorianos, os portugueses pretendiam estabelecer povoados em outras regiões do RS, como Porto Alegre.

Os primeiros açorianos chegaram em 1751. “O Porto dos Casais, que mais tarde se tornou Porto Alegre, hoje é considerada a maior cidade do mundo fundada por açorianos”, conta Carla Verónica Cedros Fernandes Marques Gomes, presidenta da Casa dos Açores do Rio Grande do Sul (Caergs), que é natural da ilha Terceira em Açores e mora em Gravataí há 23 anos.

Foto: Rui-R/Freeimages

Palco de guerra

Mas os índios guarani se recusaram a deixar a terra das Missões — que, afinal, eles ocupavam há centenas de anos —, o que levou ao ataque militar conjunto de portugueses e espanhóis e à Guerra Guaranítica (1754–56). “Os 60 casais não conseguiram se instalar no meio deste palco de guerra”, diz Véra Lucia Maciel Barroso, profª drª em História pela PUCRS, uma das idealizadoras do Centro Histórico Cultural Santa Casa e pesquisadora sobre a presença açoriana no estado.

Os açorianos, que vinham chegando pelo porto de Rio Grande ou por terra via Laguna/SC, acabaram se espalhando pelo território, sem receber o devido auxílio da Coroa, e se estabeleceram por conta própria pela capitania.

Em 1761, depois do massacre guaranítico, o Tratado de Madri (que causou toda a guerra) foi anulado e, assim, o Tratado de Tordesilhas foi ressuscitado, levando os espanhóis a atacarem os povoados no RS para retomar a região.

Açorianos em fuga chegaram a áreas como Santo Antônio da Patrulha, Triunfo, Pelotas, Caçapava e Canguçu. Portugal continuou enviando povoadores mesmo assim e, no final do século XIX, o RS já havia acolhido muitos portugueses. Tanto que, entre 1770 e 1800, a Coroa Portuguesa concedeu vários registros de terras: “Havia uma estratégia, um projeto intencional de ocupar o Rio Grande do Sul com os açorianos como forma de segurar, garantir e conquistar o Rio Grande do Sul para o domínio português”, diz Véra.

 

Adversidades

Como é possível perceber, a chegada açoriana foi marcada por adversidades: primeiro em meio à Guerra Guaranítica e, depois, com os ataques dos espanhóis, os açorianos viveram um movimento migratório permanente, isso enquanto precisavam desbravar terras e criar povoados e comunidades.

“Os alemães e, mais tarde, os italianos chegaram à Província quase 100 anos após, quando a realidade era muito diferente, ficando agrupados — os alemães no pé da Serra e os italianos na Serra. O momento histórico e econômico era muito diferente e facilitava o desenvolvimento”, destaca Carla.

“Em Santa Catarina, os açorianos ficaram na costa litorânea, numa área similar à que viviam nos Açores, à beira-mar, e viraram pescadores, artesãos. Lá tu vais encontrar uma identidade açoriana visível até hoje”, acrescenta Véra.

“Já os açorianos que vieram para cá ficaram ilhados por terra, em áreas territoriais esparsas, ao contrário da cultura de origem açoriana que era vinculada ao mar. Aqui era um mundo diferente, de desafios, de lutas, de guerras, militando na conquista deste território onde estavam morando e legitimando a serviço da Coroa Portuguesa. Então tu não enxergas de uma forma tão clara, tão visível, a presença dos açorianos porque eles foram sufocados por este cenário de guerra, de luta pela sobrevivência, neste palco terrível de militarização no Rio Grande do Sul que foi o século XVIII”, diz Véra.

Apesar de menos visível, a herança açoriana está em hábitos e tradições bem gaúchas, que você confere na terceira e última parte da matéria, na próxima edição.

 

Confira a série completa: jornaldomercado.com.br/categoria/cultura-gaucha

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