A centenária Praça XV

Ela já passou por vários nomes, tamanhos e destinações. Em 1889, em homenagem à Proclamação da República, passou a ser denominada Praça XV. Assistiu durante décadas a transformação da cidade – de província à metrópole. Hoje, longe dos seus tempos de glamour e humanismo, a velha Praça XV está reduzida a um pequeno calçadão, praticamente isolada no centro de Porto Alegre. Mas, em breve terá novamente uma nova cara. Formando, com o prédio da Prefeitura, o Mercado Público, o Chalé da Praça XV e o abrigo dos bondes um importante sítio histórico do centro, a Praça XV merece, em respeito à memória da cidade, um resgate digno da sua história.

 

Praça XV – um breve histórico
No começo do Século XIX o lugar era conhecido como Largo ou Praça Paraíso, ocupada por quitandeiros, negociantes e até moradores, chegando até ser usada como depósito de lixo. Em 1843 foi entregue à população o primeiro mercado organizado que abastecia a cidade, que coincidia com a área da atual Praça XV. Na fundação do Mercado, 1869, mudou de nome, passando a se chamar Praça Conde D’Eu. O arraial cresceu, surgiram as primeiras linhas de transporte coletivo. Em 1874 a de bondes, de tração animal, com trilhos de madeira. Em 1882 a então Praça Conde D’Eu foi inaugurada com aterros, jardins, calçamento e gradil. Dois anos depois, foi colocado o chafariz, que hoje está na Redenção. Em 1889, em homenagem à República, ela passa a se chamar Praça XV de Novembro. Ali do lado, em 1901, concluiu-se a construção do Paço Municipal. E, por volta de 1910 a cidade tinha 115 mil habitantes.

Foto: Cristiane Loff

O entorno começava a definir-se. Em 1911 é construído o segundo chalé, com estrutura de ferro e em 1913, ergue-se o segundo piso do Mercado. Em 1928 a Praça XV sofre uma redução na sua área. Os anos 30 são um marco, com o início da modernidade urbana. É a cidade está em transformação. A Bond and Share, americana, adquire o controle acionário das companhias locais e a Praça XV passa a ser contornada por diversas linhas de bondes, aumentando em muito a circulação tanto de veículos, como de pessoas. Surge, então, o abrigo coberto dos bondes, construído pela Cia. Carris Porto Alegre. O historiador Sérgio da Costa Franco, em seu clássico Guia Histórico de Porto Alegre, lembra que em 1928 a Prefeitura reduziu uma parte da praça “a fim de dar maior amplitude às ruas laterais”, conforme palavras do prefeito da época, Alberto Bins. Era a cidade crescendo. Em 1935 é ampliado o abrigo, surgindo o torreão de forma elíptica na parte central. Em 1969 os primeiros sinais de mudança: os bondes começam a abandonar a praça. Várias casas são demolidas para dar lugar à Primeira Perimetral. Já na década de 70, após a retirada dos bondes, entram os ônibus. Mais mudanças: em 1968, na administração de Alceu Collares, as bancas do abrigo são reformadas e na José Montaury é feito um calçadão de 100 metros. Em 1992, com Olívio Dutra prefeito, é feito o Largo Glenio Peres e três anos mais tarde, retirado o muro de contenção da praça, substituído por degraus, passando a ter um pavimento em um único nível e acessibilidade por todos os lados. Foi a última grande reforma da velha Praça XV.

A praça é do povo

Foto: Arquivo da família Pacheco

A Praça XV atualmente compreende a frente do Chalé e o antigo abrigo dos bondes. O ambiente, bastante conturbado, em nada lembra os velhos tempos. A única lembrança mais visível da antiga praça é o Chalé da Praça XV. Como diz Rodrigo Scherer, há cinco anos na gerência do estabelecimento, ele está inserido no contexto da Praça: “O Chalé é parte integrante da Praça XV, não tem como falar da praça sem falar do Chalé”. Para ele o ambiente deu uma degradada em no que diz respeito à mendicância, mas a relação com os camelôs é boa e respeitosa”. Hoje a entrada do Chalé, é pelo Largo Glenio Peres. Os mais antigos lembram com saudade a entrada pela Praça XV, o que realmente tornavam praça e Chalé inseparáveis. Com a “modernidade” a Praça perdeu suas antigas características. Tomada pelos camelôs, virou um ponto comercial, e o Chalé ficou ilhado, com diz Scherer. Diz ele ainda: “De uns meses para cá está um pouco melhor, a fiscalização está em cima, mas em relação às praças é uma das menos cuidadas”.

O futuro da Praça XV sem camelôs
Realmente quem vê hoje a Praça XV tem dificuldades de imaginá-la como os mais antigos a descrevem. Cercada pelo comércio informal, tomada por moradores de rua, camelôs irregulares e com uma grande circulação, a Praça XV precisa de reparos e uma reestruturação urgente. Luiz Alberto Carvalho Júnior, Supervisor de Praças e Parques da Secretaria de Meio Ambiente, informa que um grupo de trabalho, formado por técnicos da sua secretaria e da Secretaria de Planejamento está fazendo estudos para a reestruturação da praça. “O projeto vai qualificar toda a área com a saída dos camelôs. A praça vai ganhar um destaque todo especial, sem poluição visual”, diz ele. O supervisor também informa que a SMAM faz manutenção diária, com a retirada de lixo e que a Praça XV é uma das mais impactadas com um grande volume de circulação. “Por enquanto o projeto de reestruturação está traçando diretrizes e depois vai entrar na fase da captação de recursos”, diz Luiz Alberto. O certo é que a praça voltará a ter bancas, passeios e passará por manejos de arborização e paisagismo. Talvez assim ela volte a ter um pouco do seu antigo charme.

Chalé da Praça XV – boemia e romantismo

O primeiro Chalé é de 1881, mas a estrutura atual é de 1911, trazida de Buenos Aires diretamente para a Praça  XV, então um ponto de encontro, passeios, com os fotógrafos “lambe-lambes”, compondo um cenário romântico e boêmio. No primeiro semestre de 2008, quando se prevê a saída dos camelôs (que serão levados para o “Camelódromo”, na Praça Ruy Barbosa), certamente o Chalé, e seus clientes, poderão respirar: serão instalados parquímetros e a praça, reestruturada. A cerca do Chalé deverá avançar um pouco mais e parte das árvores serão adotadas por ele. Assim, quem sabe, os encontros no fim de tarde, um dos pontos fortes do Chalé, para um chope bem tirado, voltem a ser como nos bons tempos.

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