A arte da cutelaria

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Foto: Emilio Pedroso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As facas exercem certo fascínio sobre pessoas ligadas à cultura tradicional gaúcha. Seja por estarem ligadas ao passado histórico do estado, à lida campeira, ao preparo do churrasco ou às pilchas nas bailantas, elas conquistam as atenções. Muitas pessoas decidem se aventurar na feitura artesanal deste instrumento, criando peças que são quase obras de arte. Uma delas é Don Cassio Selaimen, dentista que há 14 anos se interessou por este universo e hoje é um respeitado cuteleiro, com quem conversei sobre as facas artesanais.

 

“A faca é um instrumento de trabalho. Todos temos contato com ela no dia a dia, mesmo que se tome somente sopa. Utensílio muito importante culturalmente para o estado do RS, faz parte da pilcha. O homem do campo não sai para trabalhar sem uma faca na cintura. São objetos que se deixa na família”, começa resumindo Cassio Selaimen, que ganhou o título de “Don” através de uma música de Elton Saldanha. O dentista iniciou na cutelaria para manutenção das próprias facas, começou a gostar e estudar o assunto e montou sua própria oficina. “Meu interesse foi sempre na utilização da faca como instrumento. Hoje tem muitos que veem na faca um objetivo de arte – e realmente algumas são verdadeiras joias. No meu caso, o interesse sempre foi churrasco, atividades campeiras e alguma coisa de esgrima crioula, natural para quem mora no RS”, diz.

 

DON CÁSSIO

Selaimen começou a produzir facas artesanais em 2014, e hoje está totalmente inserido na cutelaria: produz facas exclusivas como parte da premiação do ginete do Freio de Ouro, desenvolveu uma faca de salvamento com a Escola de Bombeiros do RS (que lhe trouxe reconhecimento internacional) e uma faca para a GOE – Polícia Civil do RS e foi um dos fundadores e presidente por anos da Associação Gaúcha de Cutelaria, que promove a Feira Gaúcha da Faca Artesanal em dezembro. “Minhas facas são facas de trabalho. Facas de corte agressivo, fortes e sempre com ponta proeminente, pois acredito que a faca do gaúcho, centauro dos pampas, não seria sem ponta. Usamos quase sempre madeira nativa nos cabos e um aço que aceita uma boa têmpera. Também usamos os adornos de lâmina, como mosqueados e nó espanhol”, conta.

 

FERRO + CARBONO

A história das facas começa com a pedra lascada, primeiro instrumento a ser moldado pelo ser humano. Passando pela Idade do Bronze e do Ferro, objetos cortantes foram sendo refinados e marcando a história através dos tempos em figuras como a dos ferreiros medievais, até, séculos depois, chegar a produção do aço (ferro + de 0,008 a 2,11% de carbono). “A civilização precisa de uma faca”, defende Selaimen. “Nos alimentamos por ela, vivemos com ela, guerreamos com ela e festejamos com churrasco. Este instrumento é vivo porque dele dependemos. Impossível dissociar o gaúcho de sua faca – e a população como um todo também.”

 

FACA NA BAINHA

“As facas são um grande cartão de visitas do estado. Não se imagina um gaúcho dissociado de sua bombacha, do cavalo crioulo, do chapéu e da faca. Podemos representar toda uma cultura em uma faca e aqui não é diferente”, diz Don Cassio. Para ele, as facas gaúchas são muito características, pois foram se moldando com o tempo, as lidas de campo e as guerras: são facas de carnear, afiladas, pontiagudas, estreitas e compridas. Mas existem variações, com facas pequenas, verilheiras e as de trabalhar na cozinha. “Minha influência é a história. Procuro não me desviar do original gaúcho, mesmo que isso seja contra as tendências da cutelaria atual. Acredito que, muitas vezes, evoluir é preservar, e, assim, mantenho meus modelos dentro de certos padrões que acredito serem ideais.”

 

MARTELO E MOEDA

Algumas tradições se criaram em torno destes objetos, e uma das mais conhecidas diz que não se deve receber uma faca de presente – é preciso “pagar” por ela, nem que seja com uma moeda de baixo valor, para não cortar a amizade. Facas também estão presentes em diversas benzeduras. Apesar do crescimento e valorização da cutelaria artesanal, Selaimen não deixa de valorizar a produção industrial, de siderurgias, afirmando que, produzidas com maquinário e tecnologia controlados, as facas alcançam melhor desempenho. “Não é minha opinião, é um achado científico”, ressalta. Mas a exclusividade da produção artesanal reúne muitos admiradores em torno dos diversos modelos que existem. “A faca é um objeto que atrai as pessoas. Feita para cortar, mas que une os familiares e os amigos ao redor de refeições. É realmente uma paixão, e eu também me surpreendo com o desejo das pessoas pelas facas.”

 

São várias as etapas para a feitura de uma faca artesanal. As de Don Cássio ficam prontas entre três e 30 dias, dependendo da complexidade da lâmina e do cabo.

AÇO A maioria dos aços para a produção de facas artesanais é usada na indústria, como o aço prata e o aço ferramenta. Selaimen faz facas com alto teor de carbono. “Um dos aços mais utilizados em cutelaria no mundo é o aço 5160 (para mola) que tem em torno de 0,56% de carbono. São ótimos para facas grandes e muito bons para oficinas com tecnologia limitada e cuteleiros com pouca experiência”, registra. “Eu opto pelo que é mais confiável a meu ver: boa resistência, boa retenção de fio e boa flexibilidade e resiliência. Quase sempre uso aço mola 5160, 1070 e, em casos especiais, aço ferramenta a aço damasco (um aço ‘artístico’).”

FORMATO A faca pode ser recortada ou forjada do aço. No forjamento, o aço é aquecido e moldado em prensas e com martelos. Depois, o aço é novamente aquecido acima da chamada “temperatura crítica”, que varia para cada aço, e resfriado à temperatura ambiente várias vezes. Então é feita a usinagem, etapa em que a faca é desbastada do aço, geralmente através de lixas.

TRATAMENTO TÉRMICO – Na cutelaria, a têmpera e o revenimento são duas etapas fundamentais. Têmpera é um processo para aumentar a dureza e resistência do aço, através do aquecimento acima da temperatura crítica e rápido resfriamento, geralmente em óleo. Já no revenimento, último processo térmico, a lâmina é reaquecida à temperatura controlada, abaixo da linha de transformação do aço, para corrigir sua tenacidade, reduzindo a dureza excessiva – serve para que a faca não quebre com facilidade.

ACABAMENTO – Depois do tratamento térmico, a lâmina passa pelo desbaste final. Então é colocado o cabo, que pode ser feito de osso, madeira, prata, ouro, materiais sintéticos, entre outras opções. Por último, é feita a afiação.

 

 

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