Maria Tereza Goulart: “A anistia do Jango chegou muito tarde”

“A anistia do Jango chegou muito tarde”

 

Ela era a esposa do ex-presidente João Goulart e acompanhou toda a crise política que o envolveu, desde a primeira tentativa de golpe de 1961, quando os militares tentaram impedir a sua posse em 1964, um presidente eleito deposto e o início da longa ditadura militar que dominou o país por mais de 20 anos. Para Maria Tereza, jovem e bela primeira-dama, iniciava-se um longo período de exílio, de mudanças, instabilidades e até ameaças. Vivendo no Uruguai, Rio de Janeiro e Porto Alegre, ela finalmente estabeleceu âncoras em nossa cidade. Fomos encontrá-la, casualmente, fazendo compras no Mercado, acompanhada da noiva do seu neto Christopher Goulart – elegante e charmosa, como sempre. Sobre Jaqueline Kennedy, primeira-dama dos Estados Unidos na mesma época, ela desmente que a americana não tenha comparecido à solenidade na Casa Branca quando Jango visitou Kennedy para evitar a comparação entre as belezas de ambas. Esclarece que Jaquie estava em convalhecença da perda de um bebê e não pôde comparecer. “Mas havia esta comparação”, admite.

 

Maria Tereza Goulart*

Adoro Porto Alegre, saí do Rio, estava cansada de lá. Aluguei um apartamento aqui, onde me criei e estudei. Fiquei quase nove anos estudando aqui, minha vida foi praticamente aqui, adoro Porto Alegre, acho super tranquilo. Fico mais no Rio porque minha filha mora lá, para fazer companhia, tenho duas netas. Agora estou aqui porque estou com meu neto, morando com ele, por enquanto. Sempre vinha aqui no Mercado, agora venho mais seguido, qualquer coisa que precisa vir ao Centro, venho aqui. A gente almoça aqui de vez em quando, tomas uns drinques, faço compras. Hoje vim comprar uma semente, que dizem que é maravilha, cheguei na porta e já encontrei. Eu compro quase tudo, queijo, carnes, principalmente, muito boas. É muito simpático. Aliás, todos os meus amigos lá do Rio quando vêm a Porto Alegre sempre recomendo que venham aqui no Mercadão, adoram.

 

Legalidade

Não me lembro se o Jango frequentava aqui. Quando conheci ele, eu estava no colégio, depois casei e fui para o Rio, então não sei se ele vinha, mas acho que sim. Sobre a legalidade parece que estão organizando um evento, não sei se aqui ou em São Borja, onde fizeram uma homenagem muito bonita na Câmara de Vereadores. Até agora não fui convidada para as comemorações da Legalidade.

 

Política e Dilma

Acho que mudou muito dos tempos do Jango para cá, em todos os sentidos. O Brasil daquela época era mais tranquilo no dia a dia, agora está mais violento. Os políticos eram mais suaves, comunicativos, hoje a coisa está mais difícil, cercada de interesses. Eu não tenho partido, mas tenho pessoas que admiro de diversos partidos. Agora vamos ver com a presidente. Acho que é uma pessoa com firmes propósitos de fazer coisas boas. Eu acredito muito nela, acho que está indo muito bem.

 

Jango e os destinos do Brasil

Que rumo teria tomado o Brasil? Acho que o Jango teria feito um bom governo, se tivesse continuado.  Porque ele era muito dedicado ao trabalhador e esse foi o grande problema. Por ser muito voltado às dificuldades do trabalhador e às classes mais pobres foi considerado até comunista. Acho que não tinham o que falar, então disseram isto. Era uma pessoa super correta, discreta, mas acho que ele não teve muita sorte com suas propostas e seus sonhos, de melhorar o Brasil e as condições da classe trabalhadora.

 

Exílio

Foi um período duro, acho que mais para ele do que para nós. Meus filhos eram muito pequenos. Fui para o Uruguai que é um país maravilhoso, sempre digo que é a minha segunda pátria. Fiquei lá, mesmo depois que o Jango faleceu, mais de três ou quatro anos. Não consegui sair, fiquei um pouco enraizada e não conseguia me adaptar no Brasil. Eu adoro ficar lá, foi onde fiz minha vida. Meus filhos pequenos estudaram lá. Mas para o Jango foi muito difícil do que para nós porque ele se tornou uma pessoa triste, muito preocupado com os acontecimentos no Brasil. Ditadura é uma coisa muito forte em que todos sofrem, agora imagine para uma pessoa que foi banida e teve que se exilar num outro país. Mas agora temos que pensar no futuro, tomara que agora as coisas melhores bastante.

 

Reparações: anistia tardia

Acho que a anistia do Jango chegou muito tarde, não me conformo com isto. Anistiaram todos os políticos e o Jango, só há três anos. Acho que reparação é você lembrar das pessoas com dignidade. Acho que a parte financeira não interessa. O Jango foi muito esquecido no país, não está sendo lembrado como deveria. Não adianta nada fazer um evento de anistia política, se eles não lembram do que ele fez de bem pelo país. Ele é muito esquecido, tenho esta mágoa muito grande. Eu convivia aquele clima político, automaticamente, por estar do lado, mas não tinha muita participação política, eu era muito jovem. Ele percebia tudo (o clima de conspiração). Inclusive nos últimos momentos cheguei a dizer pra ele: “Olha, Jango, vamos embora, porque a coisa aqui está muito séria”.

*Ex-Primeira Dama do País

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