500 anos – data histórica para a cerveja

O último dia 23 de abril foi, possivelmente, a mais polêmica data da história da cerveja.  Nesse dia, há exatos 500 anos, foi promulgada na Baviera a Lei da Pureza, Reinheitsgebot em alemão.

 

BURGOMESTRE, por Sady Homrich

A primeira vez que vi esse termo ser usado no Brasil foi há 20 anos, na cervejaria DaDo Bier, em Porto Alegre. De lá pra cá, muitas cervejarias nacionais lançaram mão desse marketing como garantia de qualidade dos seus produtos.

Quando os duques da Baviera William IV e Louis X assinaram essa lei, não imaginavam que ela afetaria até hoje a fabricação de cerveja alemã e mundial. Ela surgiu dentro de uma regulamentação estatal mais ampla após a unificação da Baviera em 1505, necessitando leis uniformes sobre os diretos da terra, fiscalizando preços e matérias-primas a fim de proteger os cidadãos do uso de aditivos insalubres ou venenosos. Seu texto original determina desde o preço da cerveja até o uso exclusivo de cevada, lúpulo e água em sua produção.

Claro que, ao longo dos últimos cinco séculos, este texto foi alterado várias vezes. Por exemplo, o termo ‘cevada’ foi transformado em ‘malte de cevada’, por ser muito mais adequado para a produção de cerveja. Também o malte de trigo foi incluído, já que ficara de fora do enunciado para ser reservado à produção de pão e também porque os governantes da Baviera mantiveram por longo período o monopólio para o fabrico de cerveja com trigo, uma boa fonte de renda.

No século XIX, Louis Pasteur (1822-1895) descobriu que a levedura é constituída por micro-organismos e que a sua presença é essencial para o processo de fermentação, sendo assim adicionada como a quarta matéria-prima da cerveja.

Regionalmente já havia algumas regras para produzir a bebida desde o século XII em outras cidades alemãs, além de protocolos semelhantes em algumas cidades na Bélgica e Grã-Bretanha. Mas não com a extensão e força legal dessa que foi assumida pelo Reich Alemão em 1906. Para ser chamado de bier, na Alemanha, só pode ser usado malte, lúpulo, fermento e água.  Nada de mel, açúcar, frutas, especiarias e outros cereais, como fazem os belgas.

A polêmica vem daí. Essa quadratura germânica é acusada de tolher a criatividade do cervejeiro. E a escola americana, especialmente, acha isso muito careta, quase um desaforo, tendo ferrenhos detratores ao redor do mundo, inclusive aqui. Tanto que foi criado o conceito colaborativo de anticerveja para ser lançado em forma líquida justamente no aniversário de 500 anos!

A partir de um desafio do ativista alemão Sebastian Sauer, da Freigeist Bierkultur, os cervejeiros da 2Cabeças e da Morada Cia. Etílica, mais a Maltes Catarinense, proclamaram o Dia da Cerveja Impura, com diversos eventos espalhados pelo Brasil, incluindo o lançamento de uma não-cerveja batizada de Bizarro – a bebida fermentada não leva água, nem malte de cevada, nem lúpulo.

Chimarrão, água de coco e sidra de maçã no lugar da água; malte de arroz e de aveia; losna, semente de coentro e zimbro em vez de lúpulo; uma bela adição de mel e duas leveduras selvagens para provocar. Eu tomei e gostei. Mas acredito que, durante um bom tempo, a Lei da Pureza bávara foi responsável pelo desenvolvimento técnico da cerveja, tanto nos insumos quanto nos processos.

Abraço do Burgomestre,

 

SADY HOMRICH

Que a fonte nuuuunca seque!

Sady Homrich é baterista da banda Nenhum de Nós, engenheiro químico e especialista em cervejas.

 

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