30 Anos do Tombamento do Mercado

Mercado Público patrimônio da cidade de Porto Alegre

 

O Mercado Público foi construído durante o Império brasileiro, entre 1864 e 1869. Na época era um prédio moderno e imponente. Precursor de novos tempos, tinha como função original centralizar, organizar e facilitar a fiscalização das relações comerciais na cidade; relações que se desenvolveram principalmente através da troca com as colônias alemãs e depois italianas. Ao longo do tempo surgiram diversas formas de comércio e o Mercado, que um dia fora um pioneiro, foi se transformando para acompanhar as mudanças. Porém na segunda metade do século XX o Mercado ficou desgastado e envelheceu. Quando sofreu ameaça de demolição, a cidade se mobilizou em sua defesa. A próxima exposição do Memorial do Mercado busca resgatar o processo que levou ao tombamento do Mercado Público como patrimônio da cidade. Faz referência aos aspectos que lhe conferem identidade e que no imaginário social prevaleceram, abrindo caminho a sua preservação e tombamento em 21 de dezembro de 1979.

 

O fantasma da demolição
As políticas de preservação patrimonial iniciaram no Brasil em 1930, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atualmente conhecido como IPHAN. Na cidade de Porto Alegre, estas políticas de preservação, em nível municipal, iniciaram na década de 1970,
quando houve grandes discussões sobre a demolição de importantes prédios históricos para dar espaço aos projetos de modernização da cidade, tais como a construção de viadutos, elevadas, túneis e a descentralização do centro da cidade. Essa legislação foi proposta pela Câmara Municipal e implementada pela Prefeitura de Porto Alegre para regulamentar a proteção patrimonial. E com a promulgação da Lei Orgânica Municipal em 11.12.1970, através do artigo 117, ficava estabelecido que a administração municipal faria um levantamento dos
bens de valor histórico e cultural para a cidade.

A partir de 1940, vários espaços estavam ameaçados de demolição e o Mercado era um deles. Por ocupar um espaço privilegiado no centro da capital, virou alvo desses projetos que tinham como objetivo desafogar o centro. Se no seu inicio, em 1869, o Mercado era visto como símbolo de civilidade, por centralizar o comércio sob a fiscalização municipal, com o passar do tempo, este estabelecimento foi perdendo a sua importância, sendo considerado velho e ultrapassado. No final dos anos de 1960 inicia-se uma campanha para se preservar o Mercado. Neste período a imprensa se mobilizou, tendo a frente o jornalista Walter Galvani, que era editor dos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, que escreveu as primeiras matérias e reportagens de denúncia sobre as intenções municipais de demolição do prédio. Juntamente com a imprensa, intelectuais e políticos passaram a discutir a importância histórica do Mercado. Em suas manifestações ficava claro que o Mercado não podia ser demolido, pois era um importante espaço de memória e um dos símbolos da história da cidade.

Aos poucos, a comunidade foi se envolvendo nas discussões sobre a demolição do Mercado e em 1976 uma lista de bens materiais foi encaminhada à Câmara Municipal, com o objetivo de torná-los patrimônio da cidade. Nesta primeira lista, não estava incluído o Mercado Público. Este foi introduzido, no ano seguinte, através de uma emenda do vereador Paulo Sant’Ana. Com esta emenda e com a votação da lei 4317/ 77, o Mercado estava definitivamente protegido, livre do fantasma da demolição.

Demolição do Mercado: Você é Contra ou a Favor?
(Enquete realizada pelo Correio do Povo em maio de 1972)
Alguns o querem de pé. Outros, apenas em fotografias. Muito se tem falado dele, ultimamente, mas na verdade não se sabe muito bem quem desejava que o velho prédio caísse e quem gostaria que permanecesse servindo a outros fins, ou do mesmo jeito.

Vasco Prado, artista reconhecido internacionalmente: Nada de demolição! Sou completamente favorável à manutenção de uma das poucas coisas que ainda restam da Porto Alegre antiga. Afinal, como diz Mário Quintana, se demolirem o Mercado, onde vamos colocar nossos fantasmas?

Dante Barone, administrador do Teatro da Assembléia Legislativa: Hoje acho que todos concordam, não tem mais sentido a existência daquele mercado central. Para isso existem os supermercados. Minha opinião é
clara: demolir sim! Mas somente para dar lugar a uma obra de relevo como um Teatro Municipal.

Solano Borges, presidente da Assembléia Legislativa, deputado pela ARENA: Eu sou a favor da demolição do Mercado porque há muitos anos
que ele está superado para uma cidade como Porto Alegre. Só quem o frequenta periodicamente pode dar testemunho do que valerá para Porto Alegre a construção de um novo Mercado a altura do desenvolvimento da nossa capital.

Mauricio Rosemblatt, grande incentivador da Feira do livro: Não gostaria que demolissem o prédio do Mercado. Eu acho que a picareta
modernizadora é muito importante, mas desde que não se apague aquilo que é passado autentico e que marca nas cidades o que elas têm de mais importante, mais característico e bonito.

Julieta Gomes, dona de casa: Eu sou favorável a manutenção do prédio, quer como mercado, quer como recreio público. Acho ele bonito e que é tradicional.

Susana Machado, estudante: É claro que sou contra a demolição! Mas acho que é luta inglória… Não vejo muita esperança de que ele continue lá.

Guilherme Plenízio, freguês do Mercado: Eu queria pedir aqui no nosso Correio, que o prefeito não deixasse demolirem este prédio. Ele é um pedaço da alma de Porto Alegre. Um pouco de todos nós que amamos a cidade, (ela) morreria sem ele

Discurso de Paulo Sant’Ana
“(…) é preciso que a cidade se orgulhe das suas coisas históricas, é preciso que a cidade não se renda ao modernismo desenfreado”. O pronunciamento do vereador Paulo Sant’Ana, quando da votação da lei 4317/772 , reflete o sentimento dos porto-alegrenses: No momento em que nesta cidade vai se formando uma consciência de preservação de suas coisas materiais mais valiosas; no momento em que o Executivo municipal, sensível a esta consciência, através de uma lei, tenta coibir os abusos na construção de prédios que impeçam a vista das melhores paisagens da cidade; no momento em que nós também adquirimos a consciência de que o vandalismo e a fúria imobiliária desenfreada assassinam os valores urbanos; neste momento eu considero uma ocasião histórica para este legislativo a chancela de uma lei que visa indicar ao IPHAN(sic)3 os prédios que a cidade de Porto Alegre quer preservados. […] E como eu sei que o mesmo Plano Diretor que aprovou a expansão do Estaleiro Só, contrariando a Lei, pois ela não permite construções na orla do Guaíba, e porque sei que este mesmo insensível Plano Diretor, através de alguns membros, deixava germinar naquele órgão a ideia   que o Mercado Público devia ser demolido. Estavam previstas duas hipóteses para a demolição do Mercado: a primeira era de que ali passasse a Perimetral, e a segunda é que fosse construído, no local do Mercado, uma garagem com capacidade para abrigar cerca de 5 mil veículos. E no momento em que o Sr. Prefeito Municipal declarou a este vereador, que em sua administração o Mercado não seria demolido, embora as tentativas para tal tenham sido repisadas de forma criminosa, porque é preciso que a cidade se orgulhe das suas coisas históricas, é preciso que a cidade não se renda ao modernismo desenfreado. No lugar do prédio dos “Correios e Telégrafos”; no lugar do prédio da “Assembléia Legislativa”; no lugar do prédio do “Mercado Público”; no lugar do prédio da “Biblioteca Pública Estadual”, não serão construídos edifícios, espigões, dando curso ao delírio imobiliário de desumanização da cidade.

 

COMENTÁRIOS