148 anos e uma festa para todos que fazem parte dessa história

O Mercado Público de Porto Alegre pode ser visto como sinônimo de esperança e superação. O prédio de parede amarela, arquitetura de inspiração neoclássica, com portas e janelas por todos os lados, ainda vive e, mesmo com as dificuldades enfrentadas nos últimos anos, consegue achar espaços para celebrar. Os 148 anos de história foram festejados no dia 3 de outubro com uma programação intensa, focada na diversidade cultural, e contou com a presença de autoridades políticas e religiosas da cidade.

Fotos: Fabiane Pereira

Desde 2012, o aniversário do Mercado não recebia uma comemoração com atividades que contemplassem todo o dia da festa. Neste ano, a Associação de Comércio do Mercado Público Central (Ascomepc), em parceria com a Coordenação de Próprios do Departamento Municipal de Produção, Indústria e Comércio (DMIC) e com entidades de religião afro-descendentes, organizaram uma grade de programação que se estendeu por toda a terça-feira. Dos cultos religiosos ao já tradicional bolo, tudo foi pensado a partir das pessoas e para as pessoas que frequentam e dão vida ao Mercado dia após dia. “A programação partiu do princípio de que o Mercado é público e, sendo público, é de todas as pessoas.  Então nós quisemos contemplar todas as culturas e religiões, com bênçãos do início ao fim”, diz Adriana Kauer, membro da diretoria do Mercado Público. A organização se mobilizou durante dois meses para que tudo ocorresse da melhor maneira. “Foi um trabalho pensado em cada detalhe. Acredito que estamos sendo felizes, o pessoal está gostando bastante. Procuramos diversificar a questão religiosa, convidando a todos, pois o Mercado é de todos e estamos com o pensamento de que, no ano que vem, será mais lindo e grandioso ainda. Há um sentimento que é daqui para a melhor”, diz o Secretário da SMIC, João Gilberto dos Santos.

 

Diversidade cultural

Amanhã iniciou com uma missa celebrada nos altos do Mercado pelo Pe. Gelson Ferreira, da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, de Porto Alegre. Mais tarde, o público presente se emocionou com os clássicos da música nativista interpretados por Dorotéo Fagundes, Antônio Flores Neto e Renato Fagundes, pai e filhos que vivem em prol da música e arte gauchescas. “Participar da comemoração foi uma experiência nova, interessante. A gente via esse espaço e hoje ele se torna um palco para o nosso trabalho. Isso para nós é gratificante”, diz Dorotéo. Antônio é porto-alegrense e ainda reside na cidade. Hoje teve a oportunidade de mostrar o trabalho que exerce junto com sua família em um lugar que também é especial para ele. “Eu sou cliente do mercado. Costumo vir aqui para comprar café, erva-mate, nozes, castanhas, etc. é um lugar especial para mim.” Logo após, o enredo musical da festa ficou por conta do Grupo Vocal/Instrumental Paulo Freire, que interpretou os clássicos da MPB. Para o maestro Fabio de Souza, foi uma grande honra poder participar de um momento único como esse para o Mercado. “As pessoas que trabalham aqui são guerreiras por, mesmo com as dificuldades, manter este Mercado de pé. Hoje, comemoramos e celebramos a sobrevivência. Estar fazendo parte disso é, sem dúvida, um imenso orgulho para a nossa escola”, diz Fabio. Dos altos do Mercado, passamos para o centro do prédio, onde o grupo de capoeira Cordão de Ouro reuniu a todos para brindar a festa com a típica tradicionalidade da cultura afro.

 

 

O Mercado está vivo!

O ponto alto do dia foi o tão esperado bolo e o tradicional “Parabéns para você” que, neste ano, contaram com uma chuva de balões concentrada em vários pontos do prédio. O bolo também foi pensado com muito carinho ao ser decorado com a foto de permissionários, em homenagem àqueles que trabalham e mantêm o Mercado ao longo dos anos. “São 148 anos de vidas, de pessoas que passaram aqui dentro. O Mercado é a história de cada uma dessas pessoas que aqui estão todo dia. Então comemoramos isso. Após incêndios e enchentes, o Mercado está vivo”, diz o presidente da Ascomepc, João Alberto Cruz de Melo.   

 

O que dizem as autoridades políticas

Autoridades políticas da cidade e do estado se fizeram presentes na comemoração, entre elas Manuela D’Ávila, deputada estadual; Tarcísio Flecha Negra, vereador de Porto Alegre, e Fernando Magalhães Coronel, diretor da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico. Com os avanços ocorridos nas últimas semanas, Fernando prevê uma boa perspectiva para o Mercado. “Com o PPCI executado, poderemos abrir o segundo andar e teremos mais restaurantes, mais casas boas de produção de alimentos, de festas; trazendo mais benefícios para a vida do porto-alegrense. O Mercado continuará cada vez melhor, mais forte, nos trazendo coisas boas. Vida longa ao Mercado Público! ”

 

Futuro do Mercado

Entre vaias e aplausos, o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior, também se fez presente na comemoração. Em seu discurso, repudiou as manifestações presentes contrárias ao seu governo, enfatizando a necessidade de mudanças na capital. “É interessante que agora os interesses individuais fiquem de lado para dar lugar a algo que é muito representativo aqui em nossa cidade. Todos nós queremos mudanças, mas quando chega na hora de mudar, poucas pessoas querem. Mas as mudanças são necessárias na cidade e elas vão ocorrer”, discursou o prefeito. Marchezan também falou das dificuldades enfrentadas pelo Mercado Público e o que se reserva para ele daqui para frente. “Como na nossa cidade, o MP precisa ser um lugar mais seguro, mais limpo, com mais infraestrutura, organização, aproveitamento dos espaços, e este é o grande desafio que nós temos para o Mercado e para toda a nossa cidade.”  E finalizou: “Parabéns ao Mercado Público, e que ele seja cada vez mais público!”

Ao final das comemorações, vereadores e vereadoras da chamada Frente Parlamentar dos Povos Tradicionais e de Matriz Africana entregaram uma Nota Pública ao prefeito manifestando a preocupação com a ideia de privatização do Mercado. Sofia Cavedon, coordenadora da Frente Parlamentar, diz que “a nota reforça o pedido de não privatização do Mercado Público, tendo em vista toda a história do espaço popular que atende a cidade”.

 

Bênçãos do início ao fim

A festa chegou ao fim com as bênçãos dos povos tradicionais de matriz africana e afroumbandistas, que estiveram concentrados durante todo o dia junto ao assentamento do Bará (mandala). Para Pai Paulinho, figura religiosa expressiva no Mercado, restam apenas agradecimentos e bons ventos ao que reserva o futuro. “Agradecemos pela história, por toda esta tradição que é viva. Hoje estamos aqui no assentamento do Bará, com a imagem do Bará, que é o Santo Antônio dentro do sincretismo, homenageando esse grande pai pelos 148 anos do Mercado Público. Espero que cada vez mais as coisas melhorem. Que as ideias do povo do Mercado, aconteçam. Tempo ao tempo, pois nada é da noite para o dia, tudo é muita luta, muita batalha. E com luta a gente chega até a vitória”, finaliza.

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