Luciana de Abreu: Liberdade na tribuna

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Foto: Acervo Benedito Saldanha

Ela erguia a cabeça e discursava na Porto Alegre do séc. XIX. Falava da igualdade de direitos de homens e mulheres, da abolição da escravatura, do exercício da cidadania. Falava, em suma, de liberdade. Educadora, mãe e feminista, Luciana de Abreu conquistou reputação como professora e reconhecimento como membro atuante do Partenon Literário. Apesar de dar nome a rua e escola na capital, sua história ainda é pouco conhecida.

Foi num domingo chuvoso, dia 11 de julho de 1847, que a menina foi deixada na Roda dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia, que acolhia recém-nascidos abandonados. Junto a ela, um bilhete: “Minha comadre, quero que minha afilhada chame-se Lucianna Maria da Silva”. A pequena foi encaminhada para a criadeira Justina Cândida da Silva, com quem ficou por cinco meses, até ser batizada. Seu padrinho, Gaspar Pereira Viana, guarda-livros na Casa Comercial Porto & Irmãos, a adotou como filha e deu a ela amor e estudos. Sua madrinha, Clara Soares de Paiva, esposa do comendador Israel Soares de Paiva, deu a ela cuidados e o seu primeiro contato com o mundo das letras.

ARTE E ESTUDOS
O comendador Paiva era rico comerciante e incentivador das artes, e com frequência promovia saraus. Com cinco anos, Luciana era frequentadora assídua da casa e uma verdadeira atração nos eventos, declamando textos escolhidos pela madrinha. Com sete, entrou na Escola Régia e aos 12 completou os estudos, sendo convidada por sua professora, Henriqueta de Andrade, a trabalhar como auxiliar na escola pública. Aceitou. Aprender e ensinar já fascinavam a menina. Ela tinha grande interesse pela leitura, fato muito incentivado por Gaspar. A família não tinha grandes recursos, mas ele conseguia livros para a filha adotiva, comprados ou emprestados de colegas. Luciana, então, já não era tão bem vista nos saraus dos Paiva — discursar sobre o fim da escravidão em casa escravocrata não era uma combinação que desse certo.

A ROMANCISTA
Luciana foi auxiliar de Henriqueta por dois anos. Já rabiscava pequenas histórias e, por isso, recebeu das colegas o apelido irônico de “a romancista”. Leitora voraz, passou a frequentar outros saraus em casas porto-alegrenses. Foi num deles que conheceu o marido, João José Gomes de Abreu, funcionário municipal, com quem casou em 28 de setembro de 1867. A primeira filha, Maria Pia, nasceu em 1868. Na mesma época surgiu nela o desejo de se dedicar ao magistério, aliado à necessidade de engordar as finanças familiares. Em 1869, ela acompanhou a abertura da Escola Normal de Porto Alegre (hoje Instituto de Educação General Flores da Cunha), uma iniciativa do poder público para aumentar o número de professores na província. Era sua chance: foi uma das primeiras alunas a se matricular.

EDUCADORA DE RENOME
Luciana frequentava as aulas grávida do segundo filho, Teófilo, causando burburinho. Em todas as disciplinas, teve excelente desempenho e se formou professora em 1872, aos 25 anos. Com o diploma na mão, começou a busca por oportunidades. Finalmente, em 2 de maio de 1873, conseguiu o cargo de professora provincial: 2ª cadeira pública do 3º distrito. A escola ficava na Rua da Ponte, atual Riachuelo, num sobrado aos fundos do Theatro São Pedro. Aos 27, ela passou para o 1º distrito e começou a criar reputação de professora dedicada. Como as finanças familiares não iam muito bem desde a chegada de Teófilo, Luciana somou ao trabalho na escola algumas aulas particulares e cursos informais de educação às mães de família. Ficou muito conhecida. Seu nome era mencionado como de grande educadora da capital, com as aulas que tinham a maior frequência. Dos 25 alunos iniciais, passou a 153 entre 1878 e 79.

VOZ NA TRIBUNA
Além do trabalho no magistério, ela continuava se destacando nos meios culturais e saraus literários, e logo atraiu a atenção da Sociedade Partenon Literário. “Nada mais natural que um dia fizesse parte daquele grupo de jovens que tinha a cultura como bandeira e a liberdade como ideal”, registra Benedito Saldanha, autor da sua única biografia. Ela aceitou o convite para ser sócia e, em 20 de dezembro de 1873, participou do seu primeiro sarau, o 6º da entidade, presidido por Caldre e Fião. A sua estreia na tribuna do Partenon foi um momento histórico: a primeira mulher no Brasil a discursar sobre a emancipação feminina. “O que convém pedir, o que venho aqui em vosso nome altamente reclamar, é, de parceria com a educação, a instrução superior comum a ambos os sexos; é a liberdade de esclarecer-se, de exercer as profissões a que as nossas aptidões nos levarem. Deem-nos educação e instrução: nós faremos o mais”, declarava.

MARCANDO ÉPOCA
No dia seguinte, os jornais só falavam da conferência. “Foi tão grande a repercussão daquela noite que o Partenon prestou-lhe uma inesquecível homenagem no sarau ocorrido em 31 de janeiro de 1874”, registra Benedito. Nessa ocasião, ela recebeu a cruz de ouro do Partenon, que ostenta em seu único retrato conhecido. A professora era uma das cinco mulheres do grupo — ao lado de Amália Figueiroa, Luísa de Azambuja, Revocata dos Passos de Melo e Revocata Heloísa de Melo — e se tornou um dos nomes mais importantes da entidade.

IGUALDADE E LIBERDADE
Sua principal bandeira era o acesso das mulheres à educação. Em uma época em que somente homens entravam no ensino superior, e era reservado a eles cargos públicos e até mesmo a publicação literária, a posição de Luciana em defesa de oportunidades iguais foi corajosa e ativa. Ela criticava a submissão e o desprezo que as mulheres enfrentavam, reivindicando uma nova postura da sociedade provinciana da época. O Partenon dava amparo à sua voz, com o apoio de colegas como Aurélio Veríssimo de Bittencourt, Augusto Totta e Caldre e Fião. Claro que ela também encontrou na própria entidade seus opositores, como Hilário Ribeiro. Ao lado da causa feminista, ela se engajou na abolição da escravatura e na defesa da república — já defendendo o voto feminino, em sintonia com os acontecimentos da Inglaterra da época.

HOMENAGENS
Em 1879, o Parlamento aprovou uma reforma no ensino, que permitiu o ingresso de mulheres nos cursos superiores. Luciana reunia seus textos para publicar em livro, com o título “Prelações”, quando adoeceu: tuberculose, um mal que tomava aquela época. Faleceu dia 13 de junho de 1880, aos 32 anos, em outro domingo chuvoso. Foi sepultada na Irmandade de São Miguel e Almas. Em Porto Alegre, uma rua no Bairro Moinhos de Vento e uma escola estadual no Bairro Santana recebem seu nome. Luciana também é a cadeira nº 38 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. Poucos de seus discursos se salvaram: apenas três foram publicados na revista mensal do Partenon e alguns poemas foram reunidos por Dante de Laytano. Apesar de escassos, foram o bastante para registrar a importância de sua voz.

“Minhas senhoras, nós temos sido vítimas dos prejuízos das preocupações do século, nós temos sido olhadas como seres à parte na grande obra de regeneração social, quando, sem nós, impossível seria à humanidade aperfeiçoar-se e progredir. […] Nós temos sido caluniadas, dizendo-se que somos incapazes dos grandes acontecimentos, que somos de inteligência fraca, de perspicácia mesquinha, e que não devemos passar de seres caseiros, de meros instrumentos do prazer e das conveniências do homem, quando o nosso ensino tem preparado os mais perfeitos heróis da humanidade; e quando, à testa das nações, quer na cadeira, quer na oficina modesta do operário, temos dado exemplos de assombrar os povos e os séculos!” — Luciana de Abreu em “Educação das mães de família” (1873).

Referências:
“Luciana de Abreu”, de Benedito Saldanha (Porto Alegre: Edijuc, 2012)

“As ruas de Porto Alegre”, de Eloy Terra (Porto Alegre: AGE, 2001)

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