10 anos da denominação de Centro Histórico: uma década depois, pouco a comemorar

O bairro foi criado pela Lei nº 2.022, de 7 de dezembro de 1959, com o nome de Centro, e alterado pela Lei nº 4.685, de 21 de dezembro de 1979. Em 22 de janeiro de 2008, sua denominação passou a ser Centro Histórico com a Lei nº 10.364. Mas a mudança de pouco adiantou.

 

 

CENTRO HISTÓRICO, por Emílio Chagas

Geralmente as cidades surgem através de suas regiões centrais, e com Porto Alegre não foi diferente: as origens do atual Centro Histórico se confundem com a própria história da formação da cidade. A predominância do seu povoamento se deu em torno de 1732 junto ao Guaíba, na ponta da península que define o Centro, onde foram se fixar os 60 casais que viriam a dar o nome à capital de Porto dos Casais. A Igreja Matriz e o Palácio do Governador logo se destacaram com as principais edificações da província, fazendo da Praça da Matriz um marco da cidade.

eguindo o conceito português de cidades, na parte alta ficavam as entidades institucionais e residências e na parte baixa, o comércio. Com as características geográficas da cidade, isso se acentuou de maneira marcante: o rio, então, vinha até à atual Praça da Alfândega, o que significa dizer que na região havia uma intensa atividade portuária que alavancou o comércio, em especial a Rua dos Andradas, a famosa Rua da Praia. A partir daí, começaram a tomar forma as praças mais antigas da cidade, assim como as suas grandes construções, como o Mercado Público, o Theatro São Pedro, e a Santa Casa, por exemplo, enquanto começavam a se desenhar as principais ações de urbanismo, como fontes para abastecimento de água, iluminação pública, abertura de ruas, etc.

SURGE A METRÓPOLE

É nas primeiras décadas do século XX, porém, que Porto Alegre começa a ganhar ares de metrópole, com o surgimento de grandes e imponentes obras que deixavam a época provinciana para trás. Inicialmente a marca na arquitetura é claramente de influência do Positivismo, doutrina vigente por décadas no estado, dominado pelos grandes caudilhos da política. Um marco, sem dúvida, é a construção do Viaduto Otávio Rocha, que passa a ligar o centro da cidade com a Zona Sul, abrindo caminho para outras importantíssimas ligações urbanas. Com ele, surge o chamado “canyon” urbano ao longo da nova avenida Borges de Medeiros, com grandes edifícios nas suas margens, alguns notadamente sob influência da arquitetura americana, em especial de Chicago.

Este boom arquitetônico é considerado a fase áurea do urbanismo porto-alegrense e de uma arquitetura que revolucionou o cenário urbano da cidade, com a chamada estética do ecletismo. É quando predominam os grandes arquitetos, engenheiros e construtores alemães. O arquiteto Theodor Wiederspahn, o engenheiro Rudolph Ahrons e o decorador João Vicente Friedrichs formam um poderoso trio na construção de grandes prédios do centro da cidade, como os atuais Museu de Arte do Rio Grande do Sul e Memorial do RS, entre outros. Também chama a atenção a riquíssima estatuária das fachadas dos prédios públicos (e privados) desse período — assim como os monumentos.

DECADÊNCIA E ABANDONO

O centro era, então, o grande ponto cosmopolita da cidade, centro político e social, sendo a Rua da Praia a sua expressão máxima, com seus cinemas de rua (Guarany, Imperial e Cacique), livrarias (do Globo), galerias (Chaves, Malcon, Rosário), cafés (Ryan, o mais importante), a poderosa Companhia Jornalística Caldas Júnior, tendo no vetusto Correio do Povo o seu veículo mais importante e, sobretudo, um forte e relativamente sofisticado comércio. Nos arredores, espaços consagradíssimos como o Chalé da Praça XV, ponto de encontro de jornalistas, intelectuais e políticos, e a lendária Confeitaria Rocco, na esquina das ruas Riachuelo e Dr. Flores, uma das mais bonitas construções do centro da capital, em estilo eclético, com ornamentação das fachadas inspirada na arquitetura e mitologia clássicas.

Tudo isso vem se perdendo nas últimas três décadas, com o abandono sistemático da região, que perdeu o seu charme e cuidados urbanos. Passeios públicos, paisagismo, insegurança, comércio irregular, falta de um projeto de mobiliário urbano são apenas alguns dos seus graves problemas, que fazem com que nestes 10 anos de denominação de Centro Histórico haja muito pouco a comemorar pelos moradores, visitantes e quem nele trabalha. Registre-se nos últimos anos o trabalho do então Programa Monumenta, parceria entre Ministério da Cultura e BID, que restaurou uma série de prédios históricos e largos da área.

 

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